13 Reasons Why: Inimigo ou Aliado?

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Texto publicado no Update or Die.


Esse não é um texto imparcial.

Há mais ou menos uma semana eu escrevi uma análise sobre a série 13 Reasons Why na qual expliquei porque considero a produção uma das melhores e mais corajosas já feitas pela Netflix. Sendo assim, seria hipócrita da minha parte tentar fazer um texto imparcial agora.

Esse texto não é imparcial… mas ele é, sim, uma tentativa de levar o diálogo adiante.

Bom, logo após o último final de semana, quando muita gente tinha terminado de fazer a maratona da série, as redes sociais começaram a pipocar de opiniões. Bastava passear pelo feed do Facebook para encontrar dezenas de posts de amigos com a marcação “Fulano está assistindo 13 Reasons Why”. E a imensa maioria das opiniões era positiva.

Lembro de ter visto algo semelhante em outra produção recente: La La Land.

Tivemos uma onda de elogios, mas um backlash bem forte em seguida.

Sendo assim, ao ver o sucesso de 13 Reasons Why, eu decidi dar um passo atrás e ficar de olho. Logo surgiram comentários dizendo que a série era ruim, que o roteiro era fraco, que era coisa de adolescente, que a história era besta. Enfim, isso tudo faz parte e as pessoas têm todo o direito de gostar ou não de algo.

(Só a título de curiosidade, a série está com 90% de avaliações positivas no Rotten Tomatoes e nota 9,1 no IMDb).

Mas aí veio algo que eu não estava esperando.

Veio um comentário dizendo que a série não deveria ser assistida. Não por ser ruim, ou por questão de gosto, mas porque era perigosa.

Opa. Como assim?

Muitos argumentos citam o uso do suicídio como vingança, outros falam que a série deixa as pessoas deprimidas e há quem diga que banaliza o suicídio (oi? Você viu até o fim, amigo?). Por outro lado, os defensores da série mostram que, graças a ela, o número de ligações ao CVV – Centro de Valorização da Vida dobrou. Mas aí surgem contra-argumentos de que isso tudo foi apenas por causa da propaganda feita pela Netflix e que, na verdade, a série teria sido responsável por um suicídio.

Eu não sou psicólogo e não saberia dizer se uma narrativa assim faz mal ou não para alguém em depressão, mas eu sei que o que faz mal para a sociedade como um todo é censurar uma obra. Isso, pra mim, é inconcebível.

Enfim, pessoas mais inteligentes do que eu podem trazer dados e pesquisas e estudos. São sempre bem-vindos.

Enquanto isso eu tentei fazer outra coisa. Tentei prestar atenção no que diziam as pessoas próximas a mim, principalmente as mais jovens… e o que elas, em sua maioria, estão dizendo é que os “adultos” estão falando e falando e falando, mas que eles continuam sem entender.

Se você fizer uma rápida pesquisa nesses posts que sugerem que você não assista à série, verá que os comentários vem de pais, professores, terapeutas. Quantos de adolescentes?

Pois é.

Isso, sim, eu acho preocupante.

Sabe, eu fui impactado pelo bullying durante o colégio (eu fui nerds em uma época em que isso não era cool). E, durante essa época, aconteceu o massacre em Columbine. Se você lembra disso, então sabe que os jovens que assassinaram seus colegas sofriam bullying, eram fãs de Matrix e de Marilyn Manson.

Pois bem, eu lembro de tentar conversas com pessoas mais velhas sobre o ocorrido, mas tudo o que eu recebia em troca eram conselhos e avisos de como aquilo era algo terrível, como os assassinos tinham problemas psicológicos, como ouvir Marilyn Manson era perigoso. Enfim, eu escutava um monte de coisa, mas ninguém parecia entender (ou querer entender) o desespero, a raiva que tem que ser cozinhada em fogo baixo por muito tempo para que algo daquele tipo pudesse acontecer.

Anos depois eu fui me deparar com uma entrevista do Marilyn Manson sobre Columbine. Nessa entrevista Michael Moore perguntou para Manson o que ele diria para aqueles jovens, caso tivesse a chance.

Manson respondeu:

– Eu não diria nada. Eu ouviria. Era o que aqueles jovens precisavam e o que ninguém esteve disposto a fazer.

Quando vi essa resposta, não consegui evitar de balançar a cabeça em sinal afirmativo, porque finalmente alguém tinha entendido.

Marilyn Manson não é responsável por fazer ninguém entrar em um colégio e atirar em colegas. Assim como Assassinos Por Natureza e Tarantino não vão transformar ninguém em serial killer. Do mesmo modo que Nabokov e seu Lolita não farão ninguém virar pedófilo. Claro, essas obras não são recomendadas para quem já está passando por um momento de dificuldade, mas elas não são a causa do problema.

O que esse esses artistas e suas artes têm em comum é que eles se conectam com pessoas e sentimentos. Eles mostram um ponto de vista. Eles fazem barulho. Nem sempre o resultado é perfeitinho, claro, mas qual é a alternativa? Fingir que nada disso existe?

Vamos então fingir que não há bullying comendo solto nos colégios aí? Vamos fazer de conta que não há jovens se sentindo exatamente como Hannah, a jovem suicida da série? Vamos ignorar o fato de que, sim, existe um monte de gente que vê vingança no suicídio?

Tudo isso já está aí. O mundo já tá pegando fogo e ignorar as chamas ou pedir para que elas ardam de maneira mais gentil não vai ajudar em nada.

Se alguém comete suicídio após assistir um filme, o problema não está no filme. Podemos por favor parar de procurar o culpado mais conveniente e começar a olhar para a causa real e profunda das coisas? Assumir um pouco de responsabilidade?

Hannah diz nas suas fitas: “se você está ouvindo isso, você é um porquê”.

Sabe quem também está ouvindo aquelas fitas? Nós. Porque nós também temos culpa. Todos nós. Nós continuamos falando sem parar ao invés de fazer como Manson e ouvir.

Pelo bem ou pelo mal, 13 Reasons Why está nos forçando a pensar sobre o assunto. Está gerando conversas. Só temos que tomar cuidado para não deixar um lado muito importante da história de fora desse diálogo.

Talvez a série seja realmente perigosa para quem tem alguma condição psicológica específica, como depressão. Talvez a série precise alertar melhor ao público sobre seu conteúdo. Mas talvez muita gente por aí tenha apenas perdido a capacidade de se conectar com uma galera mais jovem.

Será que você não está falando mais do que ouvindo?

Será que eu não estou?


Se você está em algum lugar sombrio da alma nesse instante e precisa ser ouvido, saiba que você não está sozinho. Acesse: CVV. É gratuito e sigiloso.

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