3 Dicas da Pulp Fiction Para Melhorar a Sua Escrita

Pulp Fiction foi muito mais do que um baita filme do Tarantino. Foi um estilo literário do início do Século XX que acabou por influenciar a indústria do entretenimento até os dias de hoje.

Impressas em papel barato, feito a partir da polpa da madeira — daí o termopulp -, essas histórias traziam temas fantásticos, assustadores, repletos de aventura e mistério. Seus autores tinham carta branca para soltar a imaginação, desde que levassem diversão ao grande público. Entre eles estão nomes imortalizados e renomados como Robert E. Howard (de Conan, o Bárbaro), H.P. Lovecraft (dos mitos de Chtulhu) e Edgar Rice Burroughs (de Tarzan e John Carter de Marte) — verdadeiros herdeiros das penny dreadfulsinglesas e de ninguém menos que Edgar Allan Poe, nos EUA.

O que nem todo mundo sabe, porém, é que o Brasil também possui o seu próprio mestre pulp. Um ficcionista — como ele prefere ser chamado — que já escreveu mais de 1.500 livros, mais de 200 HQs e roteiros para muitos filmes do Zé do Caixão: R.F. Lucchetti.

Ontem à noite eu comecei a ler meu primeiro livro do Lucchetti, As Máscaras do Pavor. Terminei hoje cedo e, se já não estava claro, agora não me resta dúvida que o estilo pulp tem muito a ensinar a todos nós.

É claro que é possível argumentar que os contos estão datados, com uma linguagem um pouquinho antiquada e que se apoiam em alguns clichês — na real eles estabeleceram certas coisas tão copiadas ao longo das décadas que acabaram por se tornar clichês. Contudo, há algo tão poderoso por trás da técnica pulp que deveria ser estudo obrigatório para todo escritor.

Aqui vou abordar 3 pontos que aprendi com a literatura pulp e com o livro do Lucchetti:

1) Pesquise — Os autores pulps eram pagos por palavra ou por livro — o próprio Lucchetti passou por um momento em sua vida em que recebia o equivalente a R$ 350 por livro escrito. Isso quer dizer que não havia tempo a perder. Ao sentar para escrever, era isso o que os caras faziam, escreviam. Eles não produziam pensando em diversas versões, correções, experimentos, etc. Eles precisavam terminar logo aquela história para poder pegar outra. Não tinha muito espaço para erro. E como você minimiza o erro? Com pesquisa. Conheça bem o assunto que vai abordar, guarde os principais pontos e mantenha informação relevante ao seu alcance. Mas também lembre: a pesquisa é uma ferramenta, não uma desculpa para você não iniciar a sua escrita.

2) Tenha Disciplina — Lucchetti escreve todos os dias, por pelo menos quatro horas, a máquina. Para ele, além de ser um prazer, a escrita também é um compromisso. Estabeleça uma rotina para produzir e se atenha a ela. Fale para todo mundo que você não está disponível durante aquele período e não pare para comer, ir ao mercado, atender ao telefone, ver e-mail ou passear no Facebook. Durante o seu período de escrita, dedique-se a pesquisar, planejar sua trama, criar personagens e, claro, produzir. Faça isso. Todo. Santo. Dia!

3) Keep it Simple — talvez o grande diferencial da literatura pulp. Lucchetti chama a si mesmo de ficcionista porque ele sabe que seu papel é criar histórias, ficção. Ele não tem arroubos artísticos e não ambiciona ser visto como um grande intelectual. O que ele quer é que você leia o livro e entenda cada palavra. Que cada frase ajude o leitor a avançar em direção à próxima. Capítulos curtos, parágrafos curtos, frases curtas. Corte o bullshit e escreva o que é necessário. Lembre-se: a melhor maneira de dizer o gato subiu no telhado é dizer o gato subiu no telhado. Parece moleza, mas como já disse o André Vianco:

Escrever fácil é difícil pra caramba.

E é isso. Se você não conhece muito sobre a pulp fiction, vale a pena gastar um tempinho pesquisando e se envolvendo com esses autores que sempre estiveram à frente de seu tempo. Alguns viveram vidas tão difíceis e passaram por dificuldades tão grandes que suas histórias renderiam livros maravilhosos.

Lovecraft foi um jovem prodígio que recitava poesia aos 2 anos de idade. No ano seguinte, seu pai enlouqueceu e ele passou a ser criado pela mãe. Como criança, estava constantemente doente e foi diagnosticado com poiquilotermia, uma doença que fazia sua pele ser sempre fria ao toque. Ainda jovem, sofreu um colapso nervoso, o que complicou sua entrada em uma faculdade e o traumatizou para o resto da vida.

Robert E. Howard começou a escrever aos 9 anos, inspirado pelos contos de horror que ouvia da avó e fantasiava ser um bárbaro lutando contra Roma. Preocupou-se em criar um mesmo universo para suas obras de fantasia, semelhante ao que a Marvel faz hoje com seus filmes. Criou Conan e a Era Hiboriana em 1932 (22 anos antes de O Senhor dos Anéis). Quando tinha 30 anos de idade, recebeu a notícia que sua mãe não sairia de um coma e morreria em breve. Profundamente abalado, foi até seu carro, sozinho, e atirou na própria cabeça. Antes, porém, escreveu:

Tudo fugiu — tudo está feito, então levem-me à pira. O banquete acabou, e as lâmpadas expiram.

Lucchetti precisou escrever 1547 livros por encomenda. Livros que ele não hesita em chamar de besteira, sem nenhum apego. Escreveu para sobreviver, porque precisava do dinheiro. Porém, também escreveu 200 livros nos gêneros que gostava, por amor. Hoje, após uma vida dedicada ao ofício, começa a ser conhecido por um número maior de leitores.

Esses e muitos outros autores pulps abriram o caminho, lutaram, não foram reconhecidos por anos e sofreram preconceito de “intelectuais”. Mas aprimoraram uma técnica que sobreviveu ao tempo. E ela está aí, para ser aproveitada pela gente.

Valorize. Aprenda. Com certeza ajudará você a se tornar um ficcionista melhor. Comigo foi assim e sou muito grato a todos esses guerreiros das letras que pavimentaram a estrada da nossa difícil jornada.

Você pode conhecer um pouco mais do trabalho do Lucchetti em sua fan page.

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