6 Coisas Que Escritores Devem Aprender Com RPGs

Eu sou um escritor. Eu conto histórias na forma escrita. Esta foi a maneira que eu escolhi para transmitir as tramas que crio na minha cabeça. É para isso que eu escrevo, não porque sou apaixonado pela língua portuguesa ou pela gramática, por figuras de linguagem, construções semânticas, etc, etc.

Veja bem, não há nenhum problema com as pessoas que amam profundamente a linguagem — e em especial a escrita. Eu apenas não sou uma delas.

Eu escrevo para contar histórias. Simples assim.

Claro que quero contar a melhor história possível para o meu público e por isso tento sempre me empenhar no aprendizado da escrita, mas a essência do que eu faço está na história.

Sou apaixonado pela possibilidade de criar histórias. E se teve algo na minha vida que me mostrou o quão incrível esta criação pode ser, foram os jogos de RPG.

Comecei a jogar em 1994, com 11 anos de idade. Um amigo me apresentou o incrível mundo cheio de elfos e guerreiros e magia e necromantes e dragões doDungeons & Dragons e foi o que bastou para eu ser fisgado. Com o tempo eu fui da fantasia do D&Dpara o drama e politicagem deVampiro: a Máscara para o horror de Chtulhu para os exercícios de futurologia de Cyberpunk e de volta à fantasia em uma nova edição doD&D.

O RPG sempre fez parte da minha vida.

Para quem nunca ouviu falar desse tipo de jogo (o jogo de verdade, não as versões computadorizadas), o RPG é uma história que se conta conjuntamente, de forma colaborativa. Cada jogador assume o papel de um personagem enquanto que um jogador especial veste o manto do Mestre — uma espécie de diretor e roteirista que controla todo o universo, com exceção dos personagens dos jogadores.

O RPG me é tão caro porque, no fim das contas, possui apenas um objetivo: contar uma história bacana entre amigos.

Ao final da sessão de jogo, se tudo der certo, o grupo terá vivido uma trama divertida, emocionante, dramática, cheia de aprendizados e momentos marcantes. Todos terão crescido. E por todos eu digo personagens e jogadores. Não duvide nem por um segundo que o que você vive na mesa de jogo é real.

Jogar é como entrar na Matrix, só que em sua própria imaginação.

Ao jogar RPG você vive uma história. E é por isso que eu acho que o jogo pode ser um grande aliado para escritores.

Então, quero dividir com vocês algumas coisinhas que aprendi ao jogar e que me ajudaram a me tornar um escritor melhor:

1) Criação de Personagens

Para jogar RPG é necessário criar um personagem, alguém em quem você se transformará durante algumas horas semanais. Talvez seja um Senhor da Guerra bárbaro, talvez um vampiro com problemas de consciência. Não importa. O que importa é que, para ser divertido jogar com ele, você precisará criar um vínculo emocional. Precisará desejar o que ele deseja, sofrer com suas derrotas e vibrar com suas conquistas. Você precisará se identificar com ele e enchê-lo de vida.

E não é assim nos livros?

O escritor precisa desenvolver a habilidade de se colocar no lugar dos personagens que cria e enxergar o mundo por seus olhos. E que melhor forma de praticar tal coisa do que com divertidas sessões semanais entre amigos?

Alguns personagens são marcantes e entram para a história. Outros são rapidamente esquecidos. Ao jogar bastante você começa a notar os ingredientes que constroem um personagem marcante. Depois é usar o que aprendeu e aplicar no seu livro.

2) Ponto de Vista

Um jogador de RPG controla apenas o seu personagem. Ele está limitado às habilidades, conhecimentos, perícias e percepção apenas daquele personagem. Ele não pode se meter nas cenas dos outros personagens e muito menos confundir aquilo que o jogador sabe com o que o personagem sabe. O compromisso com a interpretação faz parte de um bom jogo de RPG.

O escritor que praticou esse tipo de exercício encontra muito mais facilidade na hora de usar Ponto de Vista em seus livros.

Aos escrever um capítulo pelo Ponto de Vista de um personagem, o escritor não pode extravasar a percepção daquele personagem sem assumir o risco de criar uma quebra na concentração do leitor. Essa limitação é um dos principais obstáculos para muitos autores, mas é superada de forma mais natural por jogadores de RPG. Afinal, eles fazem isso como hobby.

Quer ver como um jogador de RPG manda muito bem quando o assunto é Ponto de Vista? Leia um livro de George Martin (Game of Thrones). O velhinho é jogador de RPG e sua habilidade com Pontos de Vista é exaltada no meio literário.

3) Criação de Mundos

Toda história precisa de um cenário e no RPG não é diferente. Na verdade, os cenários dos jogos são um dos principais atrativos. Embora os jogos tragam uma base bastante rica, os jogadores que assumem o papel de Mestre são incentivados a personalizar a coisa toda de acordo com seu grupo. Depois de certo tempo, a gente começa a desejar fazer mundos cada vez mais ricos e complexos. E é maravilhoso de ver como eles ganham vida, modificam e são modificados pelos personagens.

Alguns jogos de RPG são especialmente zelosos quanto à construção de cenário e trazem dicas e técnicas valiosíssimas para qualquer criativo. Se você quer aprender como se faz, talvez a resposta esteja em um livro de RPG (como este) e não em um livro com técnicas de escrita tradicional.

4) Prática de Estrutura

Uma das atribuições do Mestre é criar o “roteiro”, um esqueleto da aventura que o grupo construirá em conjunto. Cabe a ele dar ritmo, gerar acontecimentos interessantes para manter todos envolvidos e pensar em obstáculos a serem sobrepujados pelos heróis.

Ao preparar uma aventura de RPG, você se força a pensar em termos de estrutura, imaginando os pontos mais importantes da história e refletindo sobre onde inseri-los. Contudo, os “roteiros” de RPG possuem uma característica muito especial: eles precisam ser passíveis de alteração, abertos o bastante para que a história seja modificada de acordo com as ações tomadas pelos jogadores. O que nos leva ao nosso próximo ponto.

5) Prática da Criação Instintiva

As histórias construídas em sessões de RPG são formadas em tempo real, com a atuação do grupo todo, e isso ocasiona mudanças constantes. O mestre deve ser maleável e permitir que os personagens ajam com liberdade e contribuam para a obra, mas ele também precisa ser ágil para criar de forma instantânea.

Veja bem, é muito comum que, durante o jogo, os jogadores decidam fazer coisas que o Mestre não previu enquanto escrevia o “roteiro”. Isso levará a história por novos rumos. E é bom que isso aconteça, é uma das graças de se jogar RPG. Um mestre que obrigue os jogadores a seguirem um rumo pré-determinado não estará fazendo seu trabalho direito.

Para garantir a alegria, o Mestre deve aprender a criar pelo instinto e ter raciocínio rápido. A única forma de se fazer isso é praticando e praticando e praticando. Quanto mais se joga, melhor fica o jogo. E melhor fica o mestre. E melhor fica o escritor. Esta habilidade, uma vez desenvolvida, ajuda a vencer o tão temido bloqueio de escritor.

6) Melhorar Repertório

Finalmente, jogar RPG vai ajudar a aumentar o seu repertório. E, como eu já disse neste vídeo, repertório é essencial para qualquer criativo.

Os jogos de RPG abordam assuntos interessantíssimos e ajudam a abrir a cabeça para muitos temas e livros. Ao jogar, você vai querer saber mais sobre história, cultura medieval, mitologia, religião, ciência e, claro, técnica de construção de histórias.

Por isso, se você nunca jogou RPG, dê uma chance. Converse com entusiastas do jogo por aí — eles estão espalhados por todos os cantos. Veja o que a experiência pode fazer pelo escritor em você.

Já se você costumava jogar e parou porque a vida adulta não te dá mais tempo livre, pense neste texto como um incentivo para retomar o hobby. No fim das contas, a gente nunca terá tempo se não nos dermos tempo. Transforme o seu encontro semanal com amigos ao redor da mesa em uma prioridade.

E se você joga… bom, então você sabe bem do que estou falando. Role um d20!

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