Além da Muralha: Como Terminar o Seu Livro

Você acordou com uma ideia muito boa para uma história, daquelas que fazem você se erguer da cama e correr atrás de papel e caneta.

Você se senta na escrivaninha ou usa qualquer lugar como apoio e as palavras começam a jorrar no papel. Aquele personagem que pareceu nascer espontaneamente em sua criatividade começa a se construir e se desenvolver ao longo das linhas. Você quase é capaz de enxergá-lo, sentir o cheiro dele, ouvir a voz.

Conforme as páginas são completadas com frases e frases, a sua sensação de urgência aumenta. Você precisa escrever aquilo tudo. Simplesmente precisa. Afinal de contas, a sua musa inspiradora te fez uma visita e você não pode desperdiçar a energia que ela trouxe.

Você imagina mundos e culturas e vestes e idiomas e todo tipo de aventura emocionante para o seu personagem. Tudo aquilo vai para a página, claro. Talvez você até mesmo escreva um ou dois contos.

De repente você é um intrépido explorador, passeando por um mundo selvagem, sentindo prazer a cada nova descoberta. Você se sente poderoso, sábio e confiante. Você finalmente está fazendo o que nasceu para fazer.

Mas será que você está certo? Será que não está vendo uma ilusão?

O explorador dentro de você volta até a sua tribo e divide as descobertas com os demais membros do clã. Em outras palavras, você leva a sua ideia até as pessoas em quem confia. A opinião delas é muito importante.

Você aguarda enquanto elas lêem e aí…

Elas adoram. Realmente há algo notável ali.

Isso está ótimo. Você deveria escrever um livro sobre isso — elas dizem.

Era o que você precisava. A segurança. A certeza de estar no caminho certo.

Você pega seu caderno de anotações e volta à exploração, mais fundo na trilha que abriu. Mas então se depara com algo assustador. Uma imensa muralha de gelo no meio do caminho. Você não consegue dar sequer mais um passo adiante.

Você se sente bloqueado. Toda aquela sua ideia legal congela dentro da sua cabeça e você não consegue mais colocar as coisas no papel.

Você trava na hora de escrever o livro.

Conhece a sensação?

Pois é. Todos nos deparamos com esse problema em algum momento de nossas vidas. E muitos acabam desistindo e abandonando o ofício. O livro fica sem ser escrito. A ideia jaz abandonada em um caderno de rascunhos.

Por que tanta gente sofre desse mal e o que fazer para finalmente ultrapassar a muralha e terminar de escrever uma obra?

Resposta: as pessoas não se preparam para a expedição. Elas precisam de um plano.

Veja bem, ter um momento de inspiração é ótimo, ainda mais se ele acaba gerando uma ideia que promete, mas você não pode depender dela.

O processo criativo envolve diversas etapas e a conclusão de um livro exige que você passe por todas elas. Não há como escapar. Desde o momento mais gostoso até o mais sofrido, você precisa trilhar o caminho.

A primeira etapa — aquela que você vivenciou como inspiração — é a mais agradável. É criação pura, sem comprometimento ou regras. Você simplesmente traz suas ideias para a existência. Sem julgamentos. Sem estresse nenhum. E é ali que nascem grandes temas ou sacadas e a sensação é realmente muito boa. Gostosa de verdade. Mas a construção de uma história não para por aí. Para um livro nascer, você vai precisar de muito suor, muito planejamento e de horas angustiantes e solitárias em frente a uma tela em branco.

É ao se deparar com isso que muitos escritores travam.

E não é por menos. Escrever um romance é tão assustador e desafiante quanto escalar aquela muralha de gelo. Se você ficar lá, aos pés dela, olhando para cima, com certeza vai tremer.

Para alcançar o topo e ultrapassar a barreira você precisa de um sistema, de ferramentas e também precisa dividir o trajeto em partes. Acredite em mim quando digo que fica muito mais fácil chegar lá se você souber ir do ponto A ao ponto B, do ponto B ao ponto C e assim all the way up!

Você consegue tudo isso por meio da técnica.

Ao estudar a técnica criativa e utilizá-la como ferramenta você aproveita tudo de bom que existe naquela sua ideia inspirada e também consegue colocá-la na forma de romance, em um livro com começo, meio e fim.

A técnica não é sua inimiga. Ela não vai matar a sua ideia. Ela vai te ajudar a lidar com ela.

Então, sendo bem direto, é assim que você termina o seu livro:

A) Estude técnica — leia sobre estrutura e criação de cenas.

B) Divida a jornada — com os conhecimentos que adquiriu sobre estrutura, defina os pontos principais do seu livro (10% — 25% — 50% — 75% — 90%, por exemplo). Então vá de um a outro, com calma, um trajeto de cada vez. Como eu disse antes, se você tentar ir do chão ao topo da muralha de uma vez só, você vai desistir, simples assim.

C) Tenha disciplina — você consegue um grande feito ao fazer uma coisinha de cada vez. Escreva um pouco a cada dia, de capítulo em capítulo.

D) Aceite a dor — a inspiração é o momento mais gostoso do processo de escrita, mas depois dela você precisará enfrentar dores e angústias. Terá que escrever mesmo sem estar inspirado, passar horas solitárias e abrir mão de algumas coisas. Aceite. Se você achar que tudo será maravilhoso como aquele primeiro momento de criação pura então você irá se decepcionar e desistir.

E pronto. Não tem segredo.

O que faz a maioria das pessoas travarem é o medo e a dúvida ao se depararem com a muralha. Para vencer, basta entender que você não precisa escalar aquilo tudo. É só escalar dez metros hoje, mais dez amanhã, mais dez depois. Quando menos esperar terá vencido o obstáculo… e o mundo estará aos seus pés.

Pronto para a escalada?

Compartilhar agora!

Related Posts

  1. Uma leve pitada de lição de moral, com uma dose de técnico e um balde de conhecimento.
    Ótimo texto, Nano! Sei que é um pouco antigo, mas enquanto você não lança artigos novos eu tenho que reciclar hehe
    Continue com o bom trabalho!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posts Recentes

Homunk: seu estúdio virtual

Uma das coisas que eu mais gosto disso de ter um site é o contato com o público. Sério, é...

Ninguém quer ler as suas m#rd@s

Em uma tradução livre, esse aí é o título do primeiro livro que li em 2018... e que livro sensacional....

Para criar uma história incrível em 2018…

Enfim chegamos ao último dia do ano! Não sei pra você, mas pra mim 2017 foi bastante desafiador. Como uma...

Vai escrever um livro em 2018?

Olha que iniciativa legal da Amazon! Pensando em quem tem o sonho de escrever um livro e já colocou esse...

The Black Monday Murders: todos louvem o deus dinheiro

Texto publicado no Update Or Die. 1929, quebra da bolsa de valores de Nova York, também conhecida como a Grande Depressão....

The Punisher: a melhor e mais ousada série da Marvel

Texto publicado no Update Or Die. Embora a série traga como título o codinome do anti-herói, ela poderia muito bem...

MINDHUNTER: QU’EST-CE QUE C’EST?

Texto publicado no Update Or Die. Sim, a série é sobre psycho killers. Mas, ao contrário do que diz a...

Mudanças, mudanças, mudanças

Oi! Eu sei... eu sei... faz um tempinho que não apareço por aqui, mas era por um bom motivo: eu...