A bestialidade imortal dos heróis: uma história de deuses, homens e feras

Texto publicado no Update Or Die.


Esse texto fica muito mais legal se você seguir na leitura ouvindo essa música:

O cenário é a Grécia Antiga e nosso herói está morto. Embora tenha sido um poderoso guerreiro que trouxe glória à sua terra, ele tombou no campo de batalha e agora tem seu merecido descanso.

Até que Zeus, o senhor dos deuses, o traz de volta.

– Erga-se de sua tumba – Zeus ordena.

De repente o herói é tragado para fora do vazio. Seus ossos ganham densidade novamente, os músculos crescem, os vermes são expelidos dos buracos que cavavam. O herói destrói o próprio túmulo e percebe que está no meio de um cemitério. O cemitério onde foi sepultado.

Ao redor, mortos-vivos e bestas o atacam com selvageria.

É preciso lutar novamente.

Mas por quê?

A resposta vem do próprio Zeus: Atena, filha de Zeus e deusa da sabedoria, foi sequestrada por um demônio do submundo e não há ninguém forte o bastante para resgatá-la. Por causa disso, por causa dos feitos lendários do nosso herói, não havia outra alternativa a não ser ressuscitá-lo e dar a ele essa missão ingrata.

Para ajudar na tarefa, ao herói é conferida a habilidade de coletar energia para aumentar a própria força. Se energia suficiente for absorvida, ele pode então extrapolar os limites humanos e se transformar em uma fera. Uma besta.

Com socos e chutes poderosos o herói abre caminho em meio ao exército monstruoso. Ele destrói crânios, esmaga ossos, estoura a própria rocha dos túmulos. É aí que ele sente a energia. Seu corpo incha e os músculos explodem os trapos que usava como roupa.

Ele avança, cada vez mais implacável, cada vez mais furioso.

O demônio do submundo se materializa diante de seus olhos. O maldito ousa provocá-lo. Ousa dizer tudo o que fará com Atena quando o herói falhar.

Desgraçado.

Então o corpo do herói muda de novo. Articulações são levadas ao limite, tendões se partem, dentes crescem em uma boca deformada. Ele se transforma em um lobisomem, exatamente como aqueles das histórias de terror que ouvia quando criança. Mas agora ele era o terror.

O demônio também se transforma. Assume o formato de um imenso golem feito da terra do cemitério. Os longos braços de dedos afiados arremessam a face faminta da criatura, apenas para que outra surja no lugar. A mera visão desse ser é perturbadora.

Mas o herói não hesita. É preciso ir em frente. Sempre em frente.

Com força e fúria animalesca ele avança. O inimigo é terrível, mas não é páreo para sua força de vontade e experiência em batalha.

Antes de ser derrotado, porém, o covarde abre um portal para o submundo, rouba a energia do herói e foge em meio a uma gargalhada sinistra.

Claro que nosso herói o segue. Afinal, ele já esteve morto uma vez. As trevas não o assustam mais.

E assim ele segue sua jornada pelos subterrâneos do submundo onde reconquista sua força e assume as formas de homem-dragão e homem-urso, depois dentro do palácio do próprio demônio, com a forma de homem-tigre. Em cada um desses locais ele derrota o inimigo, em cada um desses confrontos o vilão foge e tortura Atena um pouco mais.

Mas ele não pode fugir para sempre.

Nosso herói o persegue até o coração do submundo, onde volta a se transformar em um lobisomem, mas dessa vez um lobisomem dourado.

É chegada a hora da batalha final.

– Bem-vindo à sua destruição – diz o demônio, antes de revelar sua verdadeira face: a de um gigantesco homem-rinoceronte.

Então será assim, uma luta entre bestas, na qual o mais selvagem sairá com a vitória, com a vida e com Atena? Que seja.

Eles se engalfinham. O demônio é poderoso demais, forte demais. Mesmo os músculos alterados do nosso herói não são páreos para o maldito rinoceronte. Mas é aí que entra a experiência de uma vida toda dedicada a lutar pela Grécia.

O herói usa sua inteligência e paciência para enfraquecer o oponente.

A noção de tempo é completamente abandonada. Há quanto tempo será que estão naquele embate? Dias? Anos?

Não importa.

Com um golpe final certeiro o herói destrói o demônio, estilhaçando sua alma e essência, condenando-o ao nada. Atena está salva. O herói conquistou a vitória e a gratidão do senhor dos deuses.

Por fim, as luzes se acendem. Os diabretes que voavam ao fundo vem abaixo, pois estavam sustentados por cordas. Atena sorri para a plateia. O herói retira sua máscara de lobisomem.

É o fim da peça em um teatro grego lotado.

É o fim do jogo (e provavelmente das suas fichas de fliperama).

Essa bem que poderia ser a trama de um livro, filme ou seriado épico da Netflix, mas é apenas a historinha boba de um game da década de 80 que é legal demais para ser esquecido.

Altered Beast explodiu a minha cabeça desde a primeira vez que eu joguei e, se você também viveu naquela época, tenho certeza que explodiu a sua.

Sendo assim, já que tem muita gente por aí que não pôde experimentar as frustrações e alegrias de morrer, morrer, morrer, até finalmente zerar o game, deixo aqui esse pequeno conto, para que a essência do jogo jamais seja sepultada, tal como a alma do nosso herói.

Rise from your grave!

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  1. Esse jogo é demais, mesmo. Foi o primeiro jogo que zerei na vida. Nunca esquecerei.
    Obrigada Nano por este conto.

    1. Foi um dos meus primeiros também. Ainda lembro da emoção quando descobri que o mega drive vinha com esse jogo junto (até então eu só jogava no fliperama) hahahaha! Obrigado pela leitura e pelo comentário, Érica 🙂

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