Como escrever para crianças

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Ultimamente alguns dos meus leitores têm me perguntado sobre como escrever para crianças.

Muito embora eu goste bastante de livros na categoria YA (Young Adult) e acredite que todos devemos ler livros infantis de tempos em tempos, esta não é uma área em que eu tenha especial contato – ou habilidade. Contudo, ao longo dos anos eu tive a sorte de reunir alguns ensinamentos que, acredito, podem ser bastante úteis para quem quer trilhar esse caminho cheio de magia e descobertas.

Vamos começar esclarecendo algumas coisas:

Muita gente acredita que as tramas voltadas a crianças devem ser simplificadas de alguma maneira, como se elas não fossem capazes de compreender estruturas como os 3 Atos (começo, meio e fim).

Isso é besteira.

O storytelling está ligado à nossa espécie desde o princípio das formações sociais. Nós sobrevivemos até aqui, em grande parte, graças à nossa habilidade de contar/ouvir histórias. É como uma segunda natureza. Tão natural quanto correr ao ver um leão vindo em nossa direção ou salivar ao sentir o cheiro de uma fruta suculenta. Nós compreendemos a nossa existência nesse mundo por meio de histórias.

Por isso, não se engane: crianças são perfeitamente capazes de acompanhar uma narrativa com começo, meio e fim.

Não há porque não aplicar aqui o conhecimento que você adquiriu sobre histórias de forma geral.

Dito isso, livros que têm a criançada como público-alvo precisam, sim, de uma atenção diferenciada em certos pontos.

Em primeiro lugar, faça um exercício de empatia e se coloque no lugar de uma criança.

A maneira como ela enxerga as coisas ao redor é bem diferente. Muita coisa ainda é novidade e o que pareceria ordinário para um adulto, para ela pode ser um grande mistério. O mundo ainda é um lugar de maravilhas a ser explorado.

Pense também em quais são os principais medos e desafios para pessoinhas daquela idade. Talvez a escola ainda assuste. Quem sabe ter que ficar longe da mãe durante oito horas diárias seja uma grande luta. Use a sua imaginação para descobrir quais temas são relevantes para o seu público e pense em formas interessantes de abordá-los.

Não se preocupe muito caso algumas coisas lhe pareçam clichê ou comuns. Lembre-se que você já teve décadas de experiência de vida – sem contar milhares de filmes, livros e seriados de TV na bagagem –, mas que quase tudo parecerá inovador para um infante.

Mostre um mundo de extremos: preto e branco, bem e mal, luz e trevas. Ainda não é a hora de se explorar tons de cinza. E nunca esqueça: os bandidos nunca devem vencer… ao menos ainda não.

Os personagens devem gerar identificação, o que muitas vezes significa protagonistas crianças ou com características infantis. Mas muito cuidado nesse ponto: personagens crianças não são pequenos adultos bobos. Eles são ativos, engraçados e perfeitamente capazes de realizar grandes feitos.

Todos temos qualidades e defeitos. Até mesmo os heróis.

A magia existe e explica muitas coisas!

Coisas assustadoras de vez em quando são bem-vindas, mas elas jamais devem tocar no corpo da criança.

E já que estamos falando sobre o que NÃO fazer… nunca, jamais, em hipótese alguma use o seu livro para dar uma lição de moral ou uma bronca na criançada. Elas vão perceber o seu intuito e não vão gostar nem um pouquinho.

Também não faça com que os adultos sejam os responsáveis por resolver todos os problemas dos heróis infantis. Eles podem guiar e ajudar, mas permita que os protagonistas lidem com obstáculos e os superem por conta própria.

Além disso tudo, tenha em mente que crianças ainda não possuem uma grande capacidade de concentração. Por isso, você terá que caprichar ainda mais na edição.

Exclua toda frase que não servir para avançar a trama.

Nada de diálogos muito longos.

Mantenha a ação, mantenha o movimento.

Palavras simples. Parágrafos curtos.

Muito, mas muito cuidado com excessos descritivos.

Procure manter um mesmo ponto de vista ao longo de toda a história.

Quando fizer uma mudança no espaço ou no tempo (ou uma mudança entre capítulos), analise se a transição está fácil de ser captada. Se não estiver, retrabalhe. A criança deve ser capaz de entender de onde veio e para onde está indo.

Bom, essas são apenas algumas dicas sobre a maravilhosa e encantadora arte de se escrever para o público infantil. Claro que elas não exaurem o assunto – e nem tem a pretensão disso –, mas acredito que sirvam como uma base sobre a qual trabalhar.

O conselho mais importante que posso deixar é o de realmente se colocar no lugar de uma criança lendo o seu livro. Faça esse exercício ao longo da sua escrita e a construção ocorrerá de forma muito mais segura.

Procure ler livros infantis também. Assim você entrará no clima certo e aprenderá formas de se abordar os assuntos que agradam a esse público.

Interessante notar como muito do que eu disse aqui também se aplica à escrita destinada a adultos. Acho que só reforça o argumento que somos todos contadores de histórias, afinal, não importando nossa idade.

Caso tenha gostado do conteúdo e esteja decidido a seguir como um escritor para crianças, busque maiores informações sobre o assunto. Entenda que diferentes faixas de idade terão diferentes necessidades e peculiaridades... e que talvez você precise explorar um pouquinho até achar o seu nicho.

Mas não há problema algum nisso. Na verdade, tenho certeza que será uma brincadeira gostosa e cheia de aventuras.

Boa viagem à Terra do Nunca! ;]


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  1. MT bom o texto, alguns pontos dele me lembraram que minhas preferências não mudaram muito mesmo depois de adulta. Me fez olhar melhor também para os escritos que fiz quando ainda tinha 13 anos, eles agora estão se tornando meu livro e tudo parece fluir melhor com eles.

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