Como usar símbolos em uma história: o mal

Todos nós enfrentamos um mal.

Todos. Cada um. Sem exceção.

Se você parar pra pensar, é quase inacreditável que um tipo de primata desprovido de grandes defesas naturais tenha se desenvolvido a ponto de superar predadores mais fortes, forças da natureza implacáveis e seu próprio impulso destrutivo para chegar até aqui.

Mas nós chegamos. Nós sobrevivemos. Nós dominamos.

Só que, pra isso, tivemos que enfrentar violência, selvageria, tirania. preconceito, egoísmo, ódio.

Na história da humanidade o mal assumiu diversas formas. Algumas dessas formas se repetiram tantas vezes e carregaram um significado tão forte que se tornaram verdadeiros símbolos – sinais de alerta que imediatamente percebemos em um nível inconsciente.

É por isso, por exemplo, que no paraíso havia uma serpente – um réptil que foi condenado a rastejar.

É por isso que Bilbo se deparou, nas entranhas da terra, com um dragão – um tipo gigantesco de réptil ganancioso.

É por isso que Harry enfrentou um basilisco, também no subterrâneo, e depois ainda teve que encarar o mal encarnado na forma de Voldemort – um feiticeiro das trevas cheio de preconceitos e de pecados tão grandes que teve sua própria aparência corrompida, ficando parecido com um… réptil.

É por isso que teóricos da conspiração acreditam que, no centro da terra, existe uma raça de seres cruéis. O nome desses seres? Reptilianos.

Veja, répteis são animais de sangue frio, muito distantes dos sentimentos de empatia e compaixão que permitiram à nossa espécie prosperar. Sendo assim, a adoção deles como um símbolo de algo maldoso fica fácil de entender.

Podemos dizer o mesmo sobre o aspecto subterrâneo. Criaturas das trevas vivem longe da luz, ou seja, daquilo que nos dá a vida e que representa a própria sabedoria.

Sendo assim, quando utilizamos desses símbolos para dar forma aos males mais abstratos que nos assombram, o resultado é o desenvolvimento de figuras verdadeiramente apavorantes. Apavorantes pois podemos enxergá-las, vislumbrá-las… podemos praticamente tocá-las.

Essa é a razão de Voldemort ser tão icônico. Afinal, embora o preconceito seja uma das mais horríveis formas de maldade, ele fica ainda mais impactante quando é encarnado em um poderoso feiticeiro com cara de cobra, já que esse feiticeiro pode, de fato, aparecer e matar o nosso herói.

Ao abordar o mal dentro da sua história, então, procure compreendê-lo. Procure entender sua natureza. E aí encontre formas de materializar essa natureza através de símbolos.

Apenas cuidado. Como Nietzsche já dizia, quando você encara o abismo por muito tempo, o abismo encara você de volta.

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