Devo escrever de forma pessoal?

Decidi escrever esse texto porque tive uma conversa interessante com um leitor aqui do blog. Basicamente ele me perguntou sobre o que se espera de um escritor quando este está escrevendo uma história e o quanto ele deve colocar de si mesmo no seu livro.

Ele relatou que começou a trabalhar em uma trama mas que logo sentiu tudo vazio de sentido, como se fossem palavras estéreis, já que o que era relatado ali não tinha muita ligação com seu estilo de vida e visão de mundo.

É uma questão interessante, não acha?

Será que é possível escrever sobre algo que não nos afete pessoalmente?

Será que dá, por exemplo, para criar um personagem solitário e triste mesmo que você seja uma pessoa super sociável e animada?

Uma das dicas mais famosas do meio literário é a tal da “escreva sobre o que você sabe”. Ela quer dizer que, ao abordar temas, locais, situações e tramas mais próximas da sua vivência, você ganha tempo e consegue colocar um maior realismo na história.

É como um advogado que resolve escrever thrillers jurídicos ou como um ex-soldado que fala sobre a experiência da guerra.

Devemos concordar que realmente deve ser difícil para um jovem do Sul que nunca passou dificuldades na vida contar a história de um idoso miserável prestes a falecer no nordeste. Mas, será que é impossível?

Eu acredito que não.

Eu acredito que, se você praticar de verdade a sua empatia, você será capaz de se colocar no lugar de pessoas completamente diferentes. Você será capaz de imaginar as mais variadas situações e, por meio da sensibilidade, conseguirá ver e sentir o mundo de uma outra perspectiva.

É por isso que mulheres conseguem escrever sobre homens, homens sobre animais, velhos sobre crianças e pessoas de bem sobre assassinos monstruosos. No fundo, somos todos humanos e temos uma essência em comum.

Dito isso, vale deixar bem claro que não há nada de errado em escrever apenas sobre aquilo que você traz na alma.

Stephen King escreve horror porque ele vê o mundo de uma forma assustadora. Sempre viu.

Paulo Coelho escreve com aquela pegada autoajuda porque ele acredita naquilo e enxerga a realidade daquela forma.

Tarantino faz filmes violentos porque aquela estética faz total sentido para expressar suas ideias.

Então, embora a dica de escrever sobre o que se sabe seja válida, aquela que diz para você escrever sobre o que ama é ainda mais válida. Não acho que exista um certo e errado aqui.

É possível pesquisar e escrever sobre algo sem ter nenhuma ligação pessoal.

Mas também é possível escrever aquilo que tira o seu fôlego, mesmo sem compreender direito o assunto.

Mas se você perguntar a minha preferência, serei obrigado a dizer que prefiro falar daquilo que me afeta de alguma forma. Mesmo quando estou escrevendo um texto mais técnico ou informativo, eu procuro um ponto de vista que tenha uma conexão comigo. Afinal, posso não entender muita sobre o que existe aí fora, mas só eu sou capaz de sentir como meu coração queima ou como meu estômago embrulha.

E aí, quando encontro essa ligação, tudo vira uma questão de achar a melhor forma de se colocar no papel.

O que se espera do escritor, então?

Que conte uma boa história. Que ensine, entretenha e desperte emoções no leitor.

E se ele puder tocar a própria alma no processo, melhor ainda.

Compartilhar agora!

Related Posts

  1. Olá Nano,

    Excelente explanação, acabou batendo com algo em que eu tinha pensado: talvez a pergunta certa não seja se é possível se colocar na pele de alguém totalmente avesso a você, mas sim o
    quanto isto lhe custa (psicologicamente falando).

    Ontem estava pensando sobre isso, e acho que pode ser bem claustrofóbico para alguém que goste de ver o mundo de um jeito positivo, por exemplo, tentar se colocar na pele do psicopata da história de terror… decerto não foge muito ao paradigma dos atores, quando interiorizam um personagem por meses.

    Um último comentário, acho que da mesma forma que o Stephen King comenta que tem leitores que confundem o personagem com a realidade, tem leitores que confundem o personagem com o escritor (já passei por isso com uma redação, com a professora de português no ensino médio), mais “água na fervura” pra pensar sobre o que escrever, hehehe

    Valeu!

  2. Olá Nano!

    Mais uma vez, parabéns pelo texto! Muito bem escrito, você é extremamento claro nas suas ideias e consegue passar a mensagem para os leitores de uma maneira bem legal.
    E novamente você escrevendo sobre algo que eu vinha pensando!
    Esses dias minha mãe estava assistindo novela e acabei vendo uma parte, eu não sei o nome do ator, mas ele está fazendo o papel do homem chefe da casa machista, que trata a mulher como empregada e descobre ter uma filha homossexual e a outra prostituta. O personagem enlouqueceu, falou horrores e fiquei pensando “cara, como será que é pro ator fazer isso?”.
    No dia seguinte estava escrevendo e queria colocar uma cena em que um personagem faz e fala coisas das quais eu discordo muito e lembrei desse trecho da novela. É realmente difícil de falar sobre aquilo que não vivemos, sentimos, passamos.. enfim, do que não faz parte de nós.
    E aí te faço uma pergunta: eu escrevo fantasia e criar vilões é um ponto que sinto certa dificuldade. Na verdade certa ansiedade de transpor o ponto em que ele é um ótimo vilão e partir mais para um ponto em que já está sendo muito forçado passar a maldade dele. Entende? Tem alguma dica de como posso melhorar isso?

    Grande abraço!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posts Recentes

Devo escrever de forma pessoal?

Decidi escrever esse texto porque tive uma conversa interessante com um leitor aqui do blog. Basicamente ele me perguntou sobre...

O grande antagonista

Toda história tem um antagonista, alguém que se coloca contra os objetivos do herói e o atrapalha em seu caminho....

Ninguém vai salvar você

Quando a gente está criando uma história mais tradicional, uma das coisas mais importantes é pensar em um protagonista realmente...

A sua ideia não vale nada

Quando a turma que adora escrever ou contar histórias se encontra (seja pessoalmente ou na internet), não demora pra conversa...

Como escrever conteúdo legal para o meu blog?

Recebi essa pergunta sobre conteúdo faz uns dias lá no meu Instagram e achei muito pertinente. Só que a resposta...

Por que não escrevo mais sobre o ofício de escrever

Se você acompanha o meu trabalho, deve ter percebido que já faz um bom tempo que eu não escrevo um...

Sobre vaidade e gratidão no meio criativo

Eu adoro o trabalho criativo. Sério. Eu meio que sou imprestável para tudo o que não envolve usar a criatividade...

Homunk: seu estúdio virtual

Uma das coisas que eu mais gosto disso de ter um site é o contato com o público. Sério, é...