Dunkirk: os sacrifícios que nos definem

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Texto publicado no Update Or Die.


Mais do que ser um filme sobre a guerra, Dunkirk é um filme sobre sacrifício.

Sabe, Nolan tem sido o meu cineasta favorito pelos últimos 10 anos. Eu considero o cara um mestre storyteller e, por conta disso, confesso que encarei com desconfiança e espanto quando algumas críticas negativas ao seu último filme começaram a aparecer na internet.

Negativa não é bem a palavra. Não é como se o filme fosse ruim ou algo do tipo. É que as críticas davam a entender que se tratava de uma obra apenas ok.

Bem, eu não podia acreditar nisso.

Eu precisava conferir com meus próprios olhos.

E o que vi explodiu a minha cabeça.

Nolan não apenas reafirmou a posição de grande contador de histórias, como foi além e me deixou ainda mais impressionado.

Dunkirk é, sim, um filmão… e vou explicar por quê.

O foco narrativo está no resgate aos mais de 400.000 soldados ingleses que se viram encurralados entre o mar e os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Um desastre militar que poderia ter sido um massacre (ainda pior), não fosse a frota de barcos civis que resgatou um grande número desses soldados.

Então a diferença com outros filmes de guerra já começa por aí. Não se trata de uma missão onde uma grande e climática vitória pode ser alcançada. Não se trata de um resgate emocionante a um jovem soldado que nos mostra diferentes atos de heroísmo.

Não.

Em Dunkirk o objetivo é a sobrevivência.

Afinal, não há muita honra ou glória quando você está espremido em uma praia fria sendo bombardeado por aviões alemães enquanto o seu país pensa em formas de resgatar menos de 10% das pessoas que estão ali ao seu redor. Tudo o que você quer é dar um jeito de viver por mais algumas horas ou dias.

A sobrevivência, aliás, também aparece em um plano maior, uma vez que uma estratégia mal pensada pode custar a própria Inglaterra em batalhas futuras. E é por causa disso que entendemos desde logo o porquê de Churchill não enviar artilharia pesada para resgatar os soldados presos em Dunkirk.

Dito isso, uma das grandes sacadas do filme está na forma como Nolan decide nos contar essa história.

Dividido em 3 pontos de vista principais, vemos o que acontece na praia ao longo de alguns dias, vemos o que acontece em um pequeno barco civil ao longo de horas e vemos o que acontece com um piloto por pouco mais de 60 minutos de combate aéreo (Tom Hardy, excelente!).

Embora os tempos narrativos sejam bastante diferentes, a edição e o roteiro bem trabalhados fazem com que a gente entenda perfeitamente o que acontece e quando acontece. E tudo isso de um jeito que não apenas evita spoilers, como aumenta a tensão.

E que tensão. Você vai passar a projeção toda angustiado.

Lá pela metade do filme, como eu estava adorando tudo até ali, comecei a me perguntar qual era a causa das críticas negativas que tinha visto sobre o filme. Por que será que uma galerinha estava reclamando da obra?

Eis então que cheguei a uma teoria curiosa… e ela envolve storytelling e o que entendemos como uma boa história.

Veja, eu amo storytelling. O estudo de técnicas de narrativa é uma obsessão minha há quase uma década e chegou a se transformar em profissão. Sendo assim, não pude deixar de notar a maneira como Nolan dobra as regras do ofício e desafia convenções.

Mas ele não desafia convenções por ignorância ou por birra. Nada disso. Ele entende tão profundamente como as narrativas funcionam e pra quê cada coisa serve que ele pode quebrar regras e fazer experimentações.

Sei que pode parecer complicado, então me deixe explicar com um exemplo prático:

Uma das coisas que aprendemos em storytelling é a importância da criação de personagens com os quais o público possa se identificar. Para isso a gente cria toda uma vida e uma história pregressa pra essas figuras, para que elas pareçam reais.

Em Dunkirk a gente mal fica sabendo o nome dos personagens, muito menos acontecimentos de suas vidas antes da guerra. Há, claro, pistas aqui e ali, mas nada como o que a gente vê em O Resgate do Soldado Ryan, por exemplo.

Teve crítico levantando esse aspecto como um erro de Nolan. O que esse crítico pareceu não entender é que o backstory de um personagem serve para nos mostrar quem esse personagem é, mas que essa não é a única maneira.

Não interessa o quanto você tagarele a respeito de um personagem, ele vai revelar a sua verdadeira essência por meio de atitudes. E, quando você coloca esse mesmo personagem em uma situação extrema (como ficar preso em Dunkirk), o tipo de atitude que ele toma é tudo o que o público precisa pra entendê-lo a fundo. Para amá-lo ou odiá-lo.

Nolan não errou em suas experimentações narrativas. Nolan deu um voto de confiança ao público. Ele sacrificou a maneira tradicional de fazer as coisas em nome do que a narrativa pedia. Em nome de uma experiência mais poderosa.

E é esse sacrifício que incomodou tantos críticos mais antigos, mas que também alçou Dunkirk ao nível de obra prima

Aliás, eu comecei esse texto falando que esse era um filme sobre sacrifícios. E é mesmo.

Sacrifícios de soldados e civis que não buscavam ser heróis, mas apenas fazer o que consideravam certo – e que, por mais irônico que pareça, me impactaram de forma muito mais intensa do que os grandes sacrifícios climáticos dos filmes de guerra mais tradicionais.

Sacrifícios de um país, que quase abandonou boa parte de seus filhos em nome das batalhas que ainda viriam.

Sacrifícios do diretor, que abriu mão de uma forma segura e garantida de se fazer as coisas.

E sacrifício do público, que precisa ter a mente e o coração abertos para receber essa história com tudo o que ela merece.

Talvez alguns críticos também devam considerar entrar na onda e sacrificar algumas visões pré-concebidas sobre o que um filme precisa ter para ser considerado bom.

É preciso enxergar além de fios de trama, estrutura, bíblias de personagem e diálogos espertinhos. É preciso também enxergar o que o cara comum enxerga: que uma história, no fim das contas, se trata de uma experiência emocional.

E que grandiosa experiência emocional Dunkirk se revelou.

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