Escrevendo na Prática Parte 10: Superando o Desânimo

Esse post faz parte da série “Escrevendo na Prática”. Clique aqui para ler o post anterior.


No nosso último texto eu falei sobre a escrita dos primeiros capítulos de Mortos-Vivos & Dragões, lembra? Eu contei como é preciso forçar um pouquinho no começo, até que a coisa toda fique mais solta. Contei também como um bom planejamento foi importante para que eu tivesse uma boa noção do caminho da minha narrativa.

Pois bem, hoje vou falar um pouco de como foi a minha rotina depois dessa primeira etapa de escrita.

Após aqueles dias iniciais mais truncados e com momentos de dor e sofrimento, a escrita finalmente começou a vir mais naturalmente. Foi como se as peças estivessem se encaixando.

Sabe quando você compra uma calça jeans nova e ela ainda não está ajustada ao seu corpo? Você precisa continuar usando por alguns dias até que o tecido finalmente ceda e se modele ao seu formato. Entende do que estou falando?

Então, a escrita funciona mais ou menos assim.

Depois de alguns dias de esforço a sua mente adota aquele novo padrão e começa a trabalhar de uma forma muito mais suave. Os personagens também ficam mais claros e você ganha mais confiança pra escrever sobre eles. É quando a coisa engata.

Nesse momento você pode até começar a ter um monte de ideias interessantes para a sua trama. Coisas que não tinham passado pela sua cabeça enquanto você montava a estrutura.

Isso aconteceu comigo e, embora eu já tivesse uma boa ideia da trama geral, eu tratei de anotar todas essas ideias e insights em um caderninho separado. Depois que eu terminava a sessão de escrita do dia eu ia lá e dava uma olhada no meu planejamento geral.

Aquelas ideias faziam sentido no plano macro? Dava pra encaixá-las em algum lugar? Que consequências elas trariam para o resto da história?

Lembre-se que uma história deve ter muito respeito pela noção de causa e consequência. Então, qualquer mudança que eu fizesse iria impactar diretamente nos rumos que eu tinha imaginado para os personagens.

Algumas vezes as mudanças e novidades valiam a pena. Em outras vezes ocasionariam problemas demais, então eu as descartava.

De qualquer modo, ter um plano geral de escrita foi algo valiosíssimo.

Todo dia eu dava uma olhada no planejamento e determinava até que ponto da trama eu deveria chegar, então sentava e escrevia.

O fato de Mortos-Vivos & Dragões ser uma história que acompanha 3 personagens, em 3 pontos de vista distintos, também foi algo que me ajudou.

Sabe, às vezes, quando escrevemos muito sobre o mesmo personagem, rola um certo enjoo, até mesmo desânimo. Isso é natural. Então, ao intercalar entre personagens, eu tinha um sopro de ar fresco.

Eu estabeleci que escreveria pelo menos um capítulo para cada personagem por dia, o que dava 3 capítulos. Era bastante cansativo, mas sempre que eu chegava nos capítulos do bárbaro Gawrghonite eu me divertia tanto que me dava uma nova descarga de energia… algumas vezes eu até ia adiante, escrevendo 4 ou 5 capítulos no dia.

Sim, teve um momento em que eu tive uma ótima sequência de escrita, alcançando perto das 5 mil palavras diárias. Contudo, isso não durou muito tempo. Aproveitei enquanto a situação rolou naturalmente, mas depois de alguns dias o ritmo baixou para uma média de 2,5 a 3 mil palavras diárias.

Estava mais do que bom, se quer saber a minha sincera opinião! 🙂

O importante era não deixar cair abaixo disso.

E como você fez isso, Nano?

Ahá… eis que chegamos ao truque das micro-recompensas.

Toda tarefa de longo prazo tem um inimigo cruel: o desânimo. E em poucas coisas isso fica tão evidente quando se está escrevendo um romance. É difícil porque você escreve, escreve, escreve e, quando para pra pensar, vê que ainda faltam 150, 200 páginas.

Isso mata qualquer um.

Para lidar com isso eu tentava manter tudo em perspectiva e me auto-recompensar diariamente.

Já falei sobre como manter tudo em perspectiva, mas vale repetir: não pense no seu livro como um todo, pense em pequenos trajetos. Se você visualizar quanto falta para terminar a obra inteira, você vai desistir. Ao invés disso, visualize quanto falta para chegar ao primeiro ponto da trama, depois ao segundo e assim por diante.

Eu me dava como maior obrigação do dia concluir os meus três capítulos. Nada era mais importante do que isso, nem mesmo comida. É, você leu direito: NEM. MESMO. COMIDA.

Se eu sentia fome, eu imediatamente via a comida como uma recompensa.

Quer comer?, eu dizia a mim mesmo. Então termine os capítulos.

Aí, quando eu terminava, ia lá e fazia um lanche de rei.

Estreou aquele filme bacana e você quer assistir? Só terá permissão depois de terminar os capítulos.

Os amigos vão se encontrar pra papear hoje à noite? Só pode ir se terminar os capítulos.

Você captou a ideia.

Eu colocava quase tudo que eu queria fazer como uma micro-recompensa condicionada à escrita. Mas eu também me dava algumas recompensas um pouco maiores.

Sempre que eu alcançava um ponto de trama (Ponto Sem Retorno, Reviravolta, etc), eu me permitia um mimo mais caprichado. Coisas como pedir a minha pizza favorita ou me presentear com um livro novo. Caso você tenha alguém te apoiando no projeto, como uma namorada, namorado ou amigos e familiares, é um bom momento para exigir pedir pequenos presentes.

Sei que parece bobo, mas é impressionante como isso funciona.

Minha mãe fazia isso quando eu era criança e acho que os resultados foram bons. De acordo com ela, eu tinha a obrigação de passar por média, mas sempre que eu tirava uma nota 10 eu ganhava um pequeno prêmio – Afinal, “a excelência deve ser recompensada” (te amo, mãe)!

Adote esse hábito e você terá o poder de se automotivar.

Por favor, não subestime a importância disso.

É fácil se comprometer a escrever um livro por um punhado de dias. Mas quando você passa a primeira semana e percebe que terá que continuar fazendo aquilo por mais um bom tempo, é aí que o monstro do desânimo ataca.

Eu também quero mostrar pra você como fiz para escrever tecnicamente os meus capítulos, mas, como o assunto é importante (e como esse texto já está grande), vou deixar para o próximo post.

Por ora, treine a cabeça para enxergar o seu livro dentro da perspectiva adequada e comece a testar algumas micro-recompensas. Eu garanto que isso será útil para a sua escrita, ok?

Conversamos novamente em breve! 😉

 

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  1. Caramba… me ajudou demais, achei que não teria mais coragem de continuar meu livro. Valeu pelo post mesmo, vou seguir as suas dicas e acredito que vou me sair bem.
    Mais uma vez, obrigado ^^

    1. Que maravilha saber disso, Guilherme. Sempre fico muito contente quando recebo feedback e vejo que as dicas estão ajudando. Uma boa escrita pra você e grande abraço. =)

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