Escrevendo na Prática Parte 11: Capítulo a Capítulo

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Esse post faz parte da série “Escrevendo na Prática”. Clique aqui para ler o post anterior.


Até agora analisamos um bocado de coisa da criação de Mortos-Vivos & Dragões. Falamos sobre planejamento, tema, criação de personagem, estrutura da trama, motivação e mais um monte de pequenos detalhes que fazem parte da tarefa de se escrever um livro. No entanto, eu estava ansioso para chegar neste post, pois agora vamos conversar sobre um dos pontos que considero dos mais importantes: a escrita dos capítulos.

Veja, no fim das contas, uma história não é nada mais do que uma série de acontecimentos encadeados. Esses acontecimentos estão ligados por uma relação de causa e consequência que vai carregando a narrativa até o momento definitivo. E tudo isso fica organizado dentro de capítulos.

Já falei anteriormente sobra a importância dos primeiros capítulos de um livro, por isso vou focar este texto na prática mais tradicional, naquela que você mergulha depois de determinar os capítulos iniciais, quando a trama toda começa a pegar ritmo, ok?

Pois bem, você deve estar lembrado que eu uso a minha estrutura como guia, sendo assim, eu determino alguns pontos-chaves dentro da história. Eu sei que no ponto 1 deve acontecer tal coisa, depois, no ponto 2, outra coisa e assim por diante. Logo, o que eu preciso fazer, é estabelecer tudo o que acontece de principal em cada capítulo que conecta esses dois pontos.

Eu faço um pequeno rascunho de no máximo um parágrafo dizendo o que acontece em cada um desses capítulos. É quase como um lembrete. Algo que me permita ter uma noção lógica da coisa.

Depois desses rascunhos, aí eu parto para o capítulo propriamente dito.

No caso de Mortos-Vivos & Dragões eu havia decidido que cada capítulo traria o Ponto de Vista de um dos três personagens principais (Valentin, Manara e Gawrghonite), então era mais uma coisa a se ter em mente.

Foi necessário tomar cuidado com o avanço da narrativa para garantir que nenhum personagem ficasse sobrando ou então parecesse fora de ritmo. Os arcos narrativos de cada um deles precisavam contribuir para o avançar da história como um todo.

Como você pode imaginar, é fácil se perder com esse tipo de coisa, por isso eu utilizo um esqueminha parecido com uma tabela. Eu pego uma folha de papel sulfite na horizontal e desenho grandes quadrados em sequência. Uma linha de quadrados para cada personagem. Depois eu escrevo o rascunho do primeiro capítulo dessa sequência e também o último para cada um dos personagens. Por fim, eu vou preenchendo o restante dos quadrados, sempre tendo em mente que o que acontece no capítulo de um personagem pode afetar a vida de outro personagem.

Aqui vale ressaltar esse efeito de causa-consequência!

Pense em seus personagens como peças em um jogo de xadrez. Se você mover uma de um determinado jeito, isso ocasionará uma mudança em todo o jogo e as demais peças vão se mover para se ajustar ao movimento inicial que você fez.

Uma história é uma coisa viva e dinâmica. É claro que planejar de antemão ajuda (e MUITO), mas ocasionalmente você irá se deparar com inconsistências. Se for o caso, pare por um instante e repense. Imagine como aquele tabuleiro deveria se reordenar. Agora comece a organizar de modo que a narrativa corra de uma forma que faça sentido.

Lembre-se: causa e consequência. Aos olhos do leitor deve parecer que a sua trama não apenas faz sentido, mas também que a forma como tudo aconteceu foi praticamente inevitável.

Caso queira fazer um estudo disso, assista a seriados como Breaking Bad ou Westworld. Quando um arco narrativo se encerra nessas séries, tudo realmente parece estar perfeitamente amarrado. É muito legal!

Mas vamos em frente…

Uma vez que os rascunhos estejam feitos e o “assunto” de cada capítulo determinado, eu parto para a escrita.

Procuro começar situando o leitor, mas sem muita enrolação. Nada de montes e montes de parágrafos descrevendo o cenário ou as pessoas. Eu deixo claro quem é o personagem que detém o Ponto de Vista, apresento uma situação e deixo a coisa seguir.

Uma boa dica é começar já no meio da ação ou então no meio de um diálogo. Isso dá uma sensação de celeridade ao leitor.

No caso de Mortos-Vivos & Dragões – uma história mais “comercial” que busca divertir – eu procurei manter um ritmo acelerado. Para isso, inseri uma dose de tensão em todos os capítulos, o mais cedo possível. E uma das formas mais tradicionais de se criar tensão é com a dinâmica objetivo x obstáculo.

Essa dinâmica funciona de forma simples: dê um objetivo para o personagem alcançar ao longo do capítulo e então jogue problemas em seu caminho. O capítulo se transformará na luta do personagem para chegar ao objetivo.

Perceba que o objetivo não precisa ser complexo. Muitas e muitas vezes ao longo do livro o objetivo dos meus personagens era apenas escapar de um lugar, ou destruir uma certa quantidade de mortos-vivos, ou ainda escalar uma parede antes que uma horda de inimigos os alcançasse.

Simplicidade não é o problema, pois o grande diferencial está na maneira de explorar essa dinâmica.

Eu fiz meus personagens sentirem medo, dúvidas, nervosismo. Muitas vezes eles discutiram entre si, tiveram dilemas, fizeram escolhas egoístas. Explore a natureza humana das suas criações e você terá material de sobre pra manter as coisas interessantes.

Eu também procuro sempre entrar no âmago dos personagens, mostrar o que eles estão pensando e sentindo. Faço isso pelo menos uma vez por capítulo e acredito que funcione muito bem. É uma maneira de revelar personagem constantemente, em pequenas doses, e também de criar identificação. Afinal, quando você compartilha do íntimo de alguém, você se conecta com esse alguém.

Ao final do capítulo, termino com um gancho. Algo que desperte a vontade do leitor de ler mais um pouco.

E como você faz isso, Nano?

Sendo bem direto:

1 – fazendo o personagem falhar em sua busca e colocando-o em uma situação de perigo.

2 – fazendo o personagem conseguir o que queria, mas já introduzindo um novo problema (que só será abordado no próximo capítulo).

3 – introduzindo um fato novo, muito mais perigoso e complicado, que torna a busca anterior do personagem irrelevante… agora o personagem terá que se virar no próximo capítulo.

Está vendo como tudo fica conectado?

O personagem quer coisas, lida com problemas, é levado a uma nova situação de perigo que o leva a um novo capítulo. Assim a história segue.

Claro que há mais detalhes sobre a criação de cena, já que essa é uma das áreas mais importantes do estudo de técnica literária. Mas, com isso que falei acima, você já conseguirá enxergar a coisa toda de uma forma diferente.

Caso queria se aprofundar nessas questões, indico o volume quatro da minha série de ebooks, o Como Escrever Um Livro: Cena e Edição. Ele traz muitos outros detalhes, dicas e maneiras de se escrever capítulos.

Mas por enquanto é isso… lá fui eu escrever um textão novamente (será que um dia conseguirei fazer um post curto rsrs?). De qualquer modo, tentei trazer a essência do método que utilizei para escrever os capítulos de Mortos-Vivos & Dragões. Junte o que você leu aqui com o que expliquei sobre estrutura e acredito que você terá um ótimo guia para a sua criação.

Se alguma coisa não tiver ficado clara ou se você quiser me dar alguma ideia ou sugestão, fique à vontade para me escrever. Eu realmente adoro receber feedback.

É isso aí. Conversamos novamente muito em breve.

Um abraço e boa escrita.

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    1. Oi, Simone! Conheço sim e sei que tem gente que á totalmente apaixonada por ele rsrsrs. Só não adotei pois costumo fazer meu planejamento/rascunhos à mão e estou adaptado ao Word, mas não excluo a possibilidade migrar pro Scrivener ainda. Você já experimentou? 🙂

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