Escrevendo na Prática Parte 12: Clímax e Finais

Esse post faz parte da série “Escrevendo na Prática”. Clique aqui para ler o post anterior.


Estamos chegando aos “finalmentes”!

Acredito que este seja o penúltimo post da série Escrevendo na Prática e por isso vou falar um pouco de como amarrei o final da trama de Mortos-Vivos & Dragões.

Na nossa conversa anterior você viu o processo que utilizei para escrever os capítulos da história. Eu fui seguindo aquele padrão, criando uma relação de causa-consequência até chegar ao grande momento do clímax.

Alcançar o clímax é sempre emocionante (pois é, sei que a frase ficou com duplo sentido, desculpe rsrsrs), mas também é onde aumentam as chances de escorregarmos e decepcionarmos o leitor. Afinal de contas, tudo o que construímos antes serviu de base para o que vem agora.

É no clímax que respondemos à questão: o personagem alcança seu objetivo ou falha miseravelmente? É nele que tudo finalmente se encaixa e podemos enxergar a trama toda, suas conexões e encadeamento de eventos.

Eu já falei isso antes, mas não custa repetir:

Ao terminar a sua história, o leitor precisa sentir que tudo ali não apenas fez sentido, mas também foi inevitável.

Para alcançar esse efeito, planejamento e atenção são fundamentais. Por essa razão eu insisto que você considere a ideia de planejar a sua estrutura, testar, experimentar… tudo isso antes de escrever pra valer. Afinal, você não quer ter o trabalho de escrever mais de 90% da obra só para chegar no grande momento e perceber que as coisas não fazem lá muito sentido, não é mesmo?

No caso de Mortos-Vivos & Dragões eu precisava de uma conclusão adequada para cada um dos personagens centrais e suas buscas. Precisava mostrar claramente ao leitor se aqueles personagens que ele passou a conhecer e a se identificar conseguiriam atingir seus desejos:

  • Gawrghonite conseguiria chegar à ilha ancestral de sua tribo e escapar da infestação zumbi?
  • Manara seria capaz de aprender mais sobre a natureza daquela praga?
  • Valentin acharia seu papel em um mundo onde a virtude parecia mais rara a cada instante?

Eu bati a cabeça para encontrar uma forma de responder a essas perguntas no mesmo momento do livro, com os nossos heróis alcançando a “hora da verdade” em instantes próximos.

Cada um desses clímax dizia respeito à jornada de cada personagem, mas, quando vistos em conjunto, eles também revelavam o clímax da própria história. O leitor, ao ler os três em sequência, conseguia tirar suas próprias conclusões sobre o que aconteceria com os personagens.

Passado o momento do clímax e adentrando no fechamento, eu optei por não usar um final expositivo em Mortos-Vivos & Dragões. O meu final fecha a trama, sim, mas não escancara o novo status quo. Deixei isso para a imaginação do leitor.

Finais desse tipo possuem a sua dose de risco, mas podem funcionar muito bem, principalmente em livros que fazem parte de uma série. Mortos-Vivos & Dragões não é parte de uma série, mas mesmo assim decidi assumir esse risco calculado já que eu não queria cair no lugar-comum das histórias de zumbi, nas quais se acha uma cura e tudo fica bem.

Não vou dar spoilers, mas o final da minha história respondia algumas perguntas enquanto dava espaço para se imaginar novos rumos (já tive leitores perguntando se teremos alguma continuação, mas por enquanto não está nos planos).

O mais importante mesmo era checar se as coisas faziam sentido, se contribuíam para a jornada dos personagens e também se seriam interessantes ao leitor. Eu me preocupo bastante em dar uma boa experiência para quem está lendo os meus livros e acho que o final da minha trama conseguiu alcançar esse objetivo.

Pra você ter uma ideia de como acho clímax e final importantes, eu nunca parto para a escrita sem ter uma boa ideia de como a trama acabará. Eu penso, rabisco, faço rascunhos até ter uma visão clara do grande momento da história e suas consequências para os personagens e para o cenário.

Uma vez com o clímax e final definidos, aí eu começo a inserir os passos que levarão a narrativa até ali. É meio como uma engenharia reversa.

Isso ainda gera uma sensação agradável no leitor, quando ele percebe que os primeiros capítulos já indicavam como a história iria acabar. Se você assistiu a série da HBO Westworld você entende bem o que quero dizer (e se você ainda não assistiu, por favor, corra assistir, mas confira tudo com muita atenção… dá pra aprender bastante sobre narrativa apenas assistindo a essa primeira temporada).

Aprendi essa técnica com um livro chamado O Poder do Clímax, de Luiz Carlos Maciel. O livro é voltado a roteiristas, mas storytellers de todos os tipos podem se beneficiar dos ensinamentos… então fica mais essa dica! 😉

Vale a pena gastar um tempo um pouco maior se dedicando ao final. Ele pode ser a chave que transformará um leitor ocasional em um verdadeiro fã.

Nesse meio temos um ditado que diz:

“Os primeiros capítulos vendem o livro. Os últimos capítulos vendem o próximo livro”.

Se você conseguir criar um clímax e uma conclusão realmente impactantes, o seu leitor ficará com a história na cabeça e sairá indicando o livro por aí. Mesmo que você tenha cometido erros ao longo do caminho, um bom final garantirá a sua redenção e trará os leitores para mais, quando você lançar o seu próximo livro.

Grande abraço e boa escrita!

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