Escrevendo na Prática Parte 4: Ponto Sem Retorno

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Esse post faz parte da série “Escrevendo na Prática”. Clique aqui para ler o post anterior.


Vimos anteriormente como eu fiz para plantar alguns detalhes da história já nas primeiras sessões de jogo (o equivalente aos primeiros capítulos de um livro). Foram pequenos detalhezinhos curiosos, mas que fizeram a diferença.

Afinal, as coisas precisavam fazer sentido e eu queria que os meus jogadores (leitores) pudessem ver as relações de causa e efeito naquele mundo fictício.

Pois bem, felizmente tudo correu conforme o planejado e a história seguiu divertida até um momento que eu acho crucial – sim, existe um ponto dentro de toda história que, se não for o mais importante, certamente vem logo após e que pode arruinar tudo o que você está criando se não for explorado com atenção.

Sabe do que eu estou falando?

Do Ponto Sem Retorno.

O Ponto Sem Retorno marca o final do Ato I e, em um livro ou filme, costuma vir até os 25% da trama. É ali que a treta estoura de vez. É a partir do Ponto Sem Retorno que a sua narrativa vai pegar ainda mais força e avançar em ritmo (você pode aprender mais sobre ele em Como Escrever Um Liro: Personagem e Trama).

Para simplificar, pense no Ponto Sem Retorno como uma ponte.

Imagine que o seu personagem principal está lá, avançando ao longo da sua narrativa, quando se depara com uma ponte. Para chegar ao seu objetivo, ele deve passar a ponte… mas atenção: após passar, essa ponte deve ser queimada.

Isso quer dizer que não dá pra voltar atrás. Uma vez que o personagem passe pelo Ponto Sem Retorno, ele deve seguir adiante, já que é impossível retornar por onde veio.

No caso da história de Mortos-Vivos & Dragões fica fácil adivinhar onde estava o Ponto Sem Retorno, não é?

Chegou um momento na trama em que a praga zumbi explodiu. Ela se espalhou com grande velocidade e, de repente, a cidade de Martuk estava mergulhada no caos.

Os personagens se viram obrigados a lidar com incêndios, hordas de mortos-vivos pelas ruas, oportunistas usando a situação para abusar dos outros – sem falar nos dilemas morais que eu joguei para eles (arriscar a vida do grupo para salvar uma idosa? Tentar abrir as celas para dar uma chance a criminosos?).

De repente, todos os personagens tinham o mesmo objetivo: escapar da cidade e sobreviver.

Dentro daquele cenário, a infestação zumbi funcionou como Ponto Sem Retorno pois exigiu ação dos jogadores. Eles eram obrigados a avançar na narrativa. Simplesmente não havia a escolha de ficar parado e não fazer nada. O mundo estava em chamas, afinal de contas.

É isso o que você deve ter em mente na hora de criar esse instante tão importante na sua história. Não dê chance ao personagem de voltar.

Se o Ponto Sem Retorno acontece quando o seu personagem se apaixona, então ele deve se apaixonar perdidamente.

Se acontece quando o personagem decide viajar pelo mundo, então ele faz isso porque a depressão o mataria se ficasse aqui.

Se ele precisa destruir um anel, então o mal reinará supremo se ele não aceitar a missão.

Entendeu onde quero chegar?

Um vez cruzado esse limiar, o personagem não pode ter condições de voltar atrás. Afinal, se ele puder desistir da sua jornada, então por que o leitor também não poderia?

Quando se trata do Ponto Sem Retorno, queime pontes, caminhe adiante, sobreviva aos mortos-vivos! 😉

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