Escrevendo na Prática Parte 5: Obstáculos Para o Ato II

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Esse post faz parte da série “Escrevendo na Prática”. Clique aqui para ler o post anterior.


Certo, até aqui já vimos como eu tive a ideia para a história, como resolvi testá-la e como determinei um dos momentos mais importantes da trama: o Ponto Sem Retorno.

Felizmente, na minha pequena experiência, tudo havia funcionado muito bem e eu podia ir adiante.

Afinal, os personagens cruzaram a ponte e a queimaram atrás de si, o que queria dizer que a ação pra valer ia começar.

Após o Ponto Sem Retorno – que ocorre mais ou menos aos 25% da história – temos o início do Ato II. É neste ato que teremos uma série de desafios e dificuldades que precisarão ser superadas pelos personagens se eles quiserem alcançar seus objetivos.

Durante essa versão inicial do cenário de Mortos-Vivos & Dragões você já viu que o Ponto Sem Retorno aconteceu quando a praga zumbi se espalhou e tomou toda a cidade de Martuk, onde os personagens estavam para um grande festival.

Eu chamei aquela sessão de jogo (o equivalente a um capítulo de livro) de “Fuga de Martuk”, já que os nossos heróis precisariam sair com vida de lá, caso quisessem continuar com sua aventuras.

Não vou entrar em pormenores da sessão aqui, mas, vale dizer que tudo funcionou melhor do que o esperado – o que me deixou bastante empolgado para continuar.

Os personagens conseguiram escapar, eles criaram vínculos entre si e houve uma percepção geral do cenário e do tema que abordaríamos.

As peças estavam todas posicionadas no tabuleiro e era hora do jogo avançar. O Ato II estava para começar.

Acredito que o Ato II seja aquele mais fácil de entender, mas o mais difícil de escrever. Minha experiência e contato com outros escritores tem reforçado essa ideia.

Veja bem, fica fácil simplificar o Ato II como uma série de obstáculos. Contudo, como e por que esses obstáculos aparecem é que é o grande pulo do gato.

Mas vamos ver como testar o potencial de um Ato II por partes!

A melhor dica que posso dar aqui é que você brinque de sádico. Isso mesmo, deixe o seu lado cruel aparecer e sente-se junto de papel e caneta. Você vai escrever uma listinha de maldades.

Tendo o cenário e os personagens em mente, coloque no papel diversos probleminhas que poderiam aparecer. O que poderia dar errado na jornada dos personagens?

Não se preocupe em uma ordem ou lógica ainda. O que queremos é quantidade.

Escreva todos os possíveis obstáculos que poderiam atrapalhar os personagens.

No caso de Mortos-Vivos & Dragões eu pensei em coisas como:

  • Fome
  • Doenças
  • Falta de abrigo
  • Bandidos roubando provisões
  • Grupos rivais
  • Animais selvagens
  • Monstros atraídos pela destruição (é um universo fantástico, lembra?)
  • Cultistas apocalípticos
  • Necromantes
  • Pessoas comuns precisando da ajuda dos heróis
  • Viagens perigosas
  • Uma nova ordem social opressora
  • Novos tipos de mortos-vivos, como zumbis élficos super ágeis

Enfim, a lista foi crescendo e crescendo até eu ter pensado em coisas como piratas, sereias zumbis, intrigas políticas e uma nova civilização integrada aos mortos.

Quando você percebe que tem uma lista enorme em mãos, isso é sinal de que o Ato II é bastante promissor. Por outro lado, se não conseguiu pensar em mais do que um punhado de conflitos, então temos um problema.

Normalmente a solução para um Ato II falho está lá no Ato I. Volte e analise a sua criação com calma. Será que os personagens estão bem completinhos? Será que o objetivo deles está claro? O cenário está rico na sua mente ou ainda parece raso?

Resolva essas questões e as possibilidades de conflito começarão a brotar. Sério. Funciona muito. Parece mágica.

Certo! Depois que você tiver uma boa lista de obstáculos será hora de escolher alguns deles para a sua história. Circule aqueles que mais fazem sentido no cenário atual e também aqueles que possuem o potencial de ensinar alguma coisa aos personagens.

Atenção. Isso é importante.

Obstáculos servem para fazer com que os personagens evoluam. Por isso, certifique-se de que os conflitos que você selecionar conseguirão dar alguma lição aos heróis. De preferencia lições que tenham a ver com a personalidade, traumas, fraquezas e limitações iniciais dos heróis.

Encontrou e circulou esses obstáculos na sua lista? Maravilha. Agora é hora de imaginá-los ocorrendo em uma ordem lógica.

Se você fizer isso corretamente, são grandes as chances de concluir essa etapa com diversas ideias de capítulos. Quem sabe até mesmo o esqueleto do seu Ato II sairá prontinho, se você resolver aplicar as técnicas que ensinei em Como Escrever Um Livro: Personagem e Trama.

Um Ato II promissor é metade do trabalho, então dê uma chance ao que ensinei nesse post, ok?

No meu caso, a listinha de problemas para Mortos-Vivos & Dragões me empolgou tanto que eu tive certeza de que o teste da história tinha sido um sucesso. Havia chegado o momento de avançar nas sessões de RPG e de partir para uma nova etapa: a escrita do livro propriamente dito.

Mas sobre isso falaremos na nossa próxima conversa. Até lá! 😉

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