Escrevendo na Prática Parte 7: Estabelecendo Personagens

Esse post faz parte da série “Escrevendo na Prática”. Clique aqui para ler o post anterior.


Recapitulando…

Até aqui eu já havia criado o cenário da minha história, testado a ideia inicial, experimentado o Incidente Incitante e o Ponto Sem Retorno e também me assegurado de que havia um bom tanto de obstáculos e conflitos que eu poderia jogar no caminho dos personagens. Maravilha.

Então eu tratei de estabelecer uma meta geral e uma meta diária para a minha produção e também cuidei para que essas metas fossem alcançáveis, para evitar frustrações.

Até aqui tudo bem. Assim, eu poderia finalmente começar a escrever, certo?

Quase.

Faltava uma das coisas mais importantes: os personagens que guiariam a história.

Mas calma aí, Nano. Você não disse que jogou sessões de RPG nesse cenário do Mortos-Vivos & Dragões? Então, com toda certeza havia muitos personagens nesse jogo.

Sim, você está certíssimo. Mas esses eram os personagens dos meus jogadores. Cada um desses jogadores teve seus motivos para criar personagens da forma como fizeram e a trama seguiu de um jeito incrível.

Só que aqueles não eram os MEUS personagens.

Eles não haviam sido criados com o intuito de transmitir a mensagem que eu tinha em mente, ou passar as emoções que eu imaginava, muito menos dar as lições que eu gostaria.

Se eu queria continuar com aquela empreitada, então eu precisaria dos meus próprios personagens. E, para criá-los, eu voltei aos meus rascunhos iniciais.

Você deve estar lembrado que, lá no segundo texto dessa série de posts, eu falei sobre o tema da história. Eu expliquei como eu havia me decidido por uma trama que trouxesse um pouquinho de reflexão sobre a morte. Lembra?

Eu disse:

Eu queria uma história que abordasse a morte e nossa relação com ela. Queria criar algo que estivesse ligado à nossa busca por superar, entender e conviver com a morte (coisas que acho muito difíceis).

Eu tinha encontrado o meu tema… e, sem saber, estava começando a criar os personagens principais e a trama de Mortos-Vivos & Dragões também.

Então como esse tema me ajudou a criar os personagens centrais da história?

Simples.

Eu peguei aquelas três palavrinhas ali – superar, entender e conviver – e decidi que cada um dos meus personagens deveria simbolizar uma delas. Desse modo tratei de desenvolver três heróis principais:

  • Gawrghonite: um bárbaro que acredita que apenas os mais fortes sobrevivem e por isso decidiu que simplesmente não sucumbiria naquele holocausto zumbi. Afinal, não existe ninguém mais forte que Gawrghonite (Superar).
  • Manara: uma jovem feiticeira obcecada por descobrir mais sobre a praga zumbi e, quem sabe, até mesmo controlá-la (Entender).
  • Valentin: um cavaleiro sagrado que luta para encontrar o seu lugar e fazer o melhor possível dentro do inferno em que o mundo se transformou (Conviver).

Claro que a criação de personagem envolveu muito mais coisa do que isso. Eu segui os passos que descrevi em Como Escrever Um Livro: Personagem e Trama para compreender melhor aquelas figuras e traçar a personalidade, objetivos, sonhos, medos e valores de cada um. Também atentei para características que pudessem despertar identificação com os leitores, já que isso é de vital importância.

Contudo, com a essência desses personagens muito clara na minha cabeça, ficou bem mais fácil avançar.

Agora eu tinha não apenas um cenário e uma ideia de trama, mas também heróis que serviriam para reforçar o tema geral e ainda representar as principais ideias da narrativa.

Quase perfeito. Faltava apenas decidir quem, de fato, seria o protagonista.

Se você leu Mortos-Vivos & Dragões pode pensar que os três são protagonistas… e isso é quase verdade. No entanto, há um personagem que carrega em si a linha primordial de todo o livro. Os outros dois possuem linhas de trama muito importantes, mas que acabam sendo acessórias à linha do protagonista.

Sabe de quem estou falando? Consegue adivinhar quem é o protagonista dessa minha história?

É ele, nosso ingênuo e valoroso Valentin.

Eu tive que tomar um cuidado maior com o cavaleiro e dar a ele momentos dramáticos que pudessem passar a mensagem do livro aos leitores (se você refletir um pouquinho, provavelmente perceberá que os principais pontos da trama estão nos capítulos do Valentin).

Sendo assim, a mensagem que quero deixar com esse post é que você redobre a atenção na hora de criar seus personagens centrais, pois não basta desenvolver uma figura interessante, é preciso ir além.

Certifique-se de que o personagem contribui para transmitir o tema da narrativa, analise se as situações dramáticas nas quais ele pode se envolver ajudam a levar lições e reflexões aos leitores e tenha certeza de que aquilo que se passa em seu coração está conectado com o coração da própria história.

Quando isso tudo estiver em ordem, aí é hora de dar o próximo passo e traçar a estrutura… mas isso veremos no próximo post. 😉

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