Escrevendo na Prática Parte 9: Os Primeiros Capítulos

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Esse post faz parte da série “Escrevendo na Prática”. Clique aqui para ler o post anterior.


Você deve estar lembrado que o nosso último texto foi bastante intenso, não é? Mas ele foi necessário. Afinal, como eu tinha um prazo apertado para escrever Mortos-Vivos & Dragões, precisava caprichar no planejamento para não desperdiçar nem tempo nem energia.

Felizmente a criação da estrutura da trama e da jornada dos personagens fluiu bem, graças aos testes e anotações que eu já tinha feito, então agora bastava sentar e escrever. Apenas preencher as lacunas.

Simples e sem segredos, certo? O único problema é que é mais fácil falar do que fazer.

Meu primeiro desafio foi estabelecer a rotina de escrita.

Eu já estava reservando uma parte do meu dia para a criação da história, testes, pesquisas e coisas do tipo, mas a coisa muda de figura quando você tem que escrever de fato. Até mesmo a parte do cérebro que você usa é diferente nessa etapa.

Os dias iniciais de escrita são difíceis. Embora exista uma certa empolgação pelo novo projeto, nós ainda não estamos naquele ritmo produtivo em que as palavras surgem naturalmente. É preciso forçar. Não tem jeito.

Esqueça essa coisa de esperar pela inspiração. Isso não existe. Se ela não aparecer espontaneamente, é seu papel como escritor correr atrás delas todos os dias, naquele horário que você separou para o seu livro.

Então o que fazer, Nano?

Relaxar.

Procure se acalmar e entender a situação. Compreenda que aquilo é normal e acontece com todo mundo. Não há motivo para nervosismo ou ansiedade. Simplesmente pegue o seu planejamento e veja o que precisa ser dito e qual ponto você precisa alcançar nos seus primeiros capítulos.

Agora escreva.

Se ainda assim a coisa travar, uma boa saída é conversar com a página. Comece a escrever aquilo que você está prestes a fazer.

Por exemplo:

Vamos lá. Pelas próximas horas eu vou escrever os primeiros capítulos da minha história. Eu preciso mostrar pro leitor quem são esses personagens e o que eles fazem da vida. Acho uma boa ideia começar pelo Valentin, que é o personagem que melhor reflete o tema. Sendo assim, acho que vou mostrar os valores morais dele, mas também dar uma pincelada no passado do cara… talvez uma situação conturbada com o pai. Também não posso esquecer de dar pistas sobre a praga zumbi que vai estourar alguns capítulos para frente.

Entendeu como funciona?

Ao fazer isso, você vai aquecendo os seus músculos da escrita e também vai entrando no clima. Esse simples exercício ajuda a enxergar possíveis caminhos para a história e para o capítulo.

Como eu já tinha feito o planejamento da trama, eu sabia que meu primeiro “ponto de destino” era o momento do Incidente Incitante – e eu já sabia exatamente o que ia acontecer lá. Então me dei como objetivo criar capítulos com acontecimentos que levassem até aquele ponto.

A criação antecipada de uma estrutura realmente é de grande ajuda.

Nesse primeiro dia de escrita eu consegui concluir 3 capítulos, os capítulos que apresentavam nossos três grandes personagens. Foi um bom dia de produção, mas eu não dei o trabalho por encerrado enquanto não ajustei certos detalhezinhos.

Em primeiro lugar, eu queria que os capítulos terminassem com um gancho, um acontecimento que levantasse suspense ou o interesse/curiosidade do leitor de certa forma. Algo que já começasse a mostrar o que viria pela frente.

Por que isso?

Bom, para manter o leitor lendo, com certeza, mas por outro motivo também. Eu queria manter a mim mesmo interessado na trama. Eu queria visualizar o rumo da história a seguir.

Ao terminar os capítulos com um gancho, indicando acontecimentos futuros, você evita que o seu cérebro se dê uma sensação de conclusão. Ele continua trabalhando na história, mesmo que subconscientemente. Dessa forma, quando você senta para trabalhar no dia seguinte, você já tem algumas ideias prontas na cabeça. É uma bela forma de evitar o bloqueio de escritor.

E em segundo lugar, eu também segui trabalhando porque percebi que o meu primeiro capítulo – com o Valentin – não estava adequado para abrir o livro.

Veja bem, o leitor possui um tipo de comportamento – e isso é verdade no mundo todo – na hora de escolher um livro:

  • Ele começa sendo atraído pela capa, que deve ser chamativa e, de preferência, já indicar o tema e tom do seu livro.
  • Depois, o leitor lê a parte de trás da obra, pra ter uma ideia geral da história. A partir daí ele pode abandonar o seu livro ou seguir interessado.
  • Se ele seguir interessado, ele lerá as orelhas da obra e aí partirá para a primeira página.
  • Caso a primeira página esteja bem escrita e dê indícios de uma trama interessante e diferenciada, aí ele comprará o livro (e aqui mora o perigo para autores que usam muitos prefácios… prefácios, em sua maioria, contam coisas ao invés de mostrar; eles são menos interessantes).

Bom, eu achei que a minha primeira página (mais especificamente as minhas primeiras 15 linhas) não estava cumprindo todo o seu potencial. Então, tratei de arranjar uma abertura mais impactante.

Como eu já conhecia os principais pontos de virada da minha história, eu decidi começar o livro com um acontecimento lá da metade. Um acontecimento super impactante e que colocava um morto-vivo bem no centro da narrativa.

Contudo, eu terminei esse capítulo inicial sem explicar quem aquela figura era e o que aconteceria com ela. Para descobrir o que viria a seguir, o leitor precisaria chegar no meio da trama… ele precisaria levar o meu livro pra casa.

Fica um pouco difícil de explicar sem dar spoilers, mas, se você leu Mortos-Vivos & Dragões, você vai entender muito bem o que estou dizendo.

Com essa abertura eu consegui criar antecipação, mostrei que a história era sobre zumbis e ainda joguei um prenúncio sombrio sobre um personagem. Qual personagem? Só lendo para descobrir.

Acho que foi uma boa decisão e não me arrependo dela. Caso você tenha lido o meu livro, que tal me dizer o que achou dessa solução que encontrei? Diz aí nos comentários! 🙂

Bom, após tudo isso, finalmente dei o dia de trabalho por encerrado e fui descansar. Afinal de contas, no dia seguinte eu teria que fazer tudo de novo… mas vamos deixar para falar disso no próximo texto.

Por ora, o que quero deixar de ensinamento é o seguinte: entenda que o começo é difícil mesmo, se force a escrever até ficar mais natural, use o seu planejamento de trama como guia e capriche no seu primeiro capítulo.

Ah… e se você estiver começando a escrever a sua própria história, lembre daquele conselho sábio do grande Stephen King:

O momento mais assustador é o que vem logo antes de você começar.

Por hoje é isso. Boa escrita e nos falamos novamente em breve!

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