Escrever Como Um Profissional Faz Toda a Diferença (ou como o livro mais aguardado do ano se transformou em decepção)

Compartilhar agora!

Eu sou um grande nerds. E por isso mesmo eu não pude resistir ao pitch de Os Senhores dos Dinossauros:

“A união de Guerra dos Tronos com Jurassic Park”

Antes mesmo de ler qualquer coisa a respeito da obra eu já estava fisgado. Quando vi que o próprio George Martin havia indicado a obra então, nossa! Corri atrás da imagem da capa, me impressionei com as ilustrações, li entrevistas do autor e, claro, encomendei a minha cópia ainda em pré-venda.

Contei os dias até a entrega. Quando o pacote chegou, fiz um vídeo de unpacking e babei com a qualidade gráfica. E então comecei a ler.

E o livro não funcionou pra mim.

Ainda estou insistindo na leitura, mas está cada vez mais difícil continuar.

Veja bem, eu entendo quem gosta da obra. Afinal, temos dinossauros e cavaleiros em um mundo fantástico. A premissa é ótima. Porém, pra mim, a execução ficou devendo. Muito.

Quero usar essa experiência para reforçar algo que eu digo há bastante tempo:

Não basta ter uma grande ideia para uma história, é necessário aprender como contá-la.

A técnica de escrita criativa não é sua inimiga. Ela é uma ferramenta que agrega valor àquela trama bacana que você tem na cabeça. Ela serve paraaprimorar a experiência do leitor, não para algemar o escritor.

Mas o que, afinal de contas, desagradou tanto em Os Senhores dos Dinossauros?

Sem soltar spoilers, vamos por partes:

1) Personagens

Game of Thrones ficou famoso não por causa de dragões, white walkers e guerras entre famílias antigas. É claro que tudo isso é muito legal, mas teria pouco valor se não tivéssemos personagens interessantes e muito bem trabalhados. Ao longo da série, somos apresentados a figuras com as quaisnos identificamos, torcemos ou até mesmo odiamos, mas, em todos os casos, nós conseguimos compreendê-las. É possível entrar na cabeça delas e olhar o mundo através de seus olhos. E isso faz toda a diferença.

George Martin é um mestre na construção de personagens e na forma como eles são apresentados ao leitor. O grande diferencial de sua obra está aí.

Victor Milán, autor de Os Senhores dos Dinossauros, não é George Martin. Seus personagens carecem de profundidade, não nos convencem e, em dados momentos, chegam a ser extremamente irritantes (não é, Princesa Melodia?). Seus objetivos não são bem construídos e eles não nos saltam aos olhos como seres reais. São, para usar um termo do meio literário, “sacos de ossos”.

O que podemos aprender com isso?

Que personagens são a alma da história. Como escritor, você deve se preocupar em compreendê-los, partilhar de seus sonhos, angústias, medos e objetivos. Eles merecem uma grande parcela de esforço em sua construção e respeito em sua execução.

Um personagem bem construído vai falar com você, dizer o que deseja e para onde quer ir. E você deve escutá-lo. O maior erro que um escritor pode fazer é forçar um personagem em um rumo que ele não tomaria.

2) Excesso de descrição

Antigamente, descrições longas e detalhadas eram necessárias. Afinal, não havia internet e o acesso a informação era limitado. Desse modo, quando um escritor falava de um ornitorrinco, ele precisava descrever o ornitorrinco em detalhes para que o leitor não ficasse no escuro.

Hoje não é mais assim. Caso o leitor realmente faça questão de saber algo nos mínimos detalhes, ele pega o celular e usa uma coisinha chamada Google.Hoje, a gente quer que a coisa flua.

E descrições em excesso travam a história.

Sério, fazia tempo que eu não lia um livro com tantas descrições quanto Os Senhores dos Dinossauros. Eu sei que obras de ficção científica e fantasia pedem por um pouco mais de detalhes, mas aqui o autor passou um pouquinho da conta. Ele gasta muita energia — e páginas e páginas — falando sobre as roupas e armaduras e cor dos olhos e enfeites de cabelo e… enfim, você entendeu.

Prejudicou bastante a minha experiência de leitura.

O que podemos aprender com isso?

Que descrições são necessárias, mas devemos buscar formas de usá-las sem diminuir o ritmo da narrativa. Um jeito de se fazer isso é sempre se perguntar: “eu preciso mesmo detalhar isso aqui?”.

Quanto mais você conseguir inserir a descrição no meio da ação, melhor.Leitores amam ação.

Você já parou para se perguntar por que as pessoas gostam de ler diálogos? Porque diálogo é ação. É algo acontecendo. É dinâmico e move a história adiante.

Descrições são estáticas.

3) Trama

É importante situar o leitor dentro de sua história. O que está acontecendo? Quem quer o quê? Como a coisa avança?

De certa forma, uma trama bem resolvida gera um resumo apurado da história.

O Senhor dos Anéis é sobre um cara comum que quer destruir um anel mágico e assim derrotar o senhor das trevas.

Guerra dos Tronos é sobre uma série de conflitos entre casas nobres enquanto um antigo mal desperta no norte.

Star Wars é sobre um Jedi que quer livrar a galáxia do domínio de um império opressivo.

Sobre o que é Os Senhores dos Dinossauros?

Tive dificuldade em compreender a trama geral e também em descobrir quais são os objetivos dos personagens e o que os move adiante naquele mundo — esse probleminha, diretamente ligado à falha na criação de personagens, vem nos incomodar aqui também. Está vendo como as peças se conectam?

Dá para notar que Milán criou um cenário grandioso em sua cabeça, mas ele não soube expressar isso em termos de trama. Ele quis passar complexidade por meio de palavras difíceis, mistérios e uma penca de personagens centrais. O resultado acabou sendo confuso.

O livro poderia ter um ritmo muito mais agradável caso ele simplificasse, cortasse personagens e tivesse um objetivo bem claro em mente.

O que podemos aprender com isso?

Que menos é mais e que, antes de partir para a complexidade, é bom ter certeza que se compreende muito bem sobre o que é a sua história.

4) Tensão e Conflito

Não adiante negar, conflito é o motor da história. Ninguém quer ler um livro onde tudo dá certo. Nós queremos desafios e sangue e suor e lágrimas. Queremos coisas acontecendo e uma trama que avance. Queremos conflitos que façam sentido dentro do universo criado.

Muitos capítulos de Os Senhores dos Dinossauros são desperdiçados com nada acontecendo. Pelo menos nada de muito relevante. Temos capítulos inteiros compostos por fofoquinhas, sem grandes perigos ou significados para a história.

Em outros momentos nos deparamos com lutas e obstáculos, mas os personagens são tão magnânimos que não chegamos a temer por eles.

Há bons momentos, no entanto. A cena que abre o livro, com uma grande batalha entre cavaleiros de dinossauros é interessante e diverte — o que mostra que Milán tem o conhecimento técnico necessário para um bom livro. Talvez seu erro tenha sido em complicar demais. Se ele tivesse feito um livro mais enxuto e direto, o resultado teria sido outro.

O que podemos aprender com isso?

Que histórias são sobre conflitos — internos e externos. Caso as coisas estejam muito calmas na sua trama, então algo está errado. Um olhar crítico, capítulo a capítulo, e uma edição implacável podem fazer maravilhas para consertar uma história morna. Mas eu bem sei que é mais fácil falar do que fazer!

Os Senhores dos Dinossauros se revelou uma ótima ideia que não foi aproveitada em todo o seu potencial. Um exemplo de como um investimento técnico poderia gerar um resultado final melhor.

Claro que nem tudo está perdido. Como eu já disse, a ideia é muito boa e Milán imaginou um cenário bastante rico. Eu tenho certeza que muita gente vai curtir a obra, muito em função da criatividade de seu escritor. E tudo bem, isso é mais do que válido. Mas não podemos fechar os olhos e simplesmente ignorar os deslizes técnicos.

Tem um ditado que afirma que sábio é quem aprende com os próprios erros e mais sábio ainda é quem aprende com os erros dos outros. Tenho certeza que Milán está lendo as críticas ruins que tem recebido e usando-as para se tornar um escritor melhor.

A gente pode fazer o mesmo!

Compartilhar agora!

Related Posts

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posts Recentes

Por que as pessoas leem?

Esqueça respostas bonitinhas como: estilo, conhecimento, bom-gosto literário, informação, criatividade e todas as demais que ficariam ótimas em um programa...

As vantagens de escrever sobre o que você sabe

Já falamos aqui sobre a importância de se escrever sobre aquilo que se ama, além de se escrever sobre aquilo...

A sua visão é única

De vez em quando eu encontro pessoas que querem escrever um livro, mas ficam com medo de começar porque acham...

Escreva além do que você sabe

Um conselho famoso encontrado em diversos livros e cursos de escrita criativa é o tal do escreva sobre o que você...

Sangrar na página

"Tudo o que você precisa fazer é sentar em frente à sua máquina de escrever e sangrar". Pesado, né? Essa...

Dá pra escrever com verdadeira indiferença?

"Não se pode escrever nada com indiferença". A frase é da Simone de Beauvoir e reforça aquilo que falamos no...

Crie com amor

Eu não vou mentir pra você: eu não amo tudo o que eu crio. Como eu trabalho com escrita (além...

Escrever é difícil

Escrever não é fácil. Pode vir a ser fácil... em alguns momentos. Mas nunca será totalmente livre de sofrimento. Sentar...