Ficção, Karma e as Loucuras da Vida

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A ficção é mais difícil que a realidade. A ficção precisa fazer sentido enquanto que a vida… bem, a vida é muito louca.

Se você trabalha com histórias, é possível que já tenha ouvido algo assim por aí.

É uma regrinha do nosso ofício que garante um senso lógico para a narrativa. Mostra que as coisas estão interconectadas, que o ponto A leva ao B que leva ao C e assim por diante.

É também uma verdade. Na ficção, as coisas precisam fazer sentido e, na vida, raramente fazem.

Na vida, coisas lazarentas vão acontecer não importa o quanto você se esforce para evitá-las. Acidentes, balas perdidas, inimizades, traições. Todos estamos sujeitos a isso e não há absolutamente nada que a gente possa fazer a respeito.

Mas… será mesmo?

Por que coisas ruins acontecem com pessoas boas?

Outro dia eu estava conversando com uma amiga sobre isso. Sobre como às vezes parece que o universo simplesmente resolveu tirar uma com a sua cara.

A lei de Murphy inteira desaba sobre você e os acontecimentos são tão absurdos que se você decidisse colocar aquilo em um livro ou roteiro provavelmente teria a história recusada por falta de verossimilhança.

Então… eu e essa amiga estávamos falando sobre situações rotineiras de mini-desgraça, colocando pra fora, rindo a respeito. Mas, depois de feito tudo isso,  veio aquela inevitável vontade de tirar um sentido das coisas.

Nós nos perguntamos:

Por que dias assim existem?

Por que coisas ruins acontecem mesmo quando somos gente boa?

Por que o destino é tão cretino?

A meu ver, existem apenas duas possibilidades de resposta:

1) O universo é caótico e totalmente fora de controle. Às vezes você vai se ferrar na loteria cósmica e não há nada que se possa fazer a respeito.

Se for esse caso, a gente tem que engolir a desgraça com farinha, aguentar firme e seguir em frente. O caos, devido à sua própria natureza, não pode se repetir enternamente e, cedo ou tarde, a maré vai virar. A experiência ruim, serve, se não pra mais nada, ao menos para treinar a nossa resiliência.

2) Karma. Mas não a visão distorcida de karma que temos por aí. Aquela justiça bizarra que diz que você vai se ferrar se for malvado e se dar bem se for bonzinho. Isso daí é história pra boi dormir. Karma nunca foi sobre isso.

Karma é sobre aprendizado.

E todo mundo precisa aprender, mesmo as pessoas boas. E é por isso que elas também estão sujeitas ao karma.

Mas esse papo aí é muito metafísico. Vamos tentar compreender de um jeito mais simples.

Quem acredita na Lei do Karma diz que todos estamos aqui para evoluir, para nos aproximarmos da nossa essência mais pura. Para isso, precisamos de lições que nos ensinam mais sobre nós mesmos.

Filme “O Feitiço do Tempo” – muitas oportunidades de aprender.

Às vezes aprendemos com uma lição. Às vezes precisamos repetir de ano e ter a mesma lição  diversas vezes até aprender. Quer ver?

Digamos que você tenha sido traído pela namorada mesmo sempre tendo sido fiel. Você fica indignado e puto da vida (com razão) e joga toda a culpa naquela traíra. Você termina o relacionamento e sai xingando as mulheres, dizendo que nunca mais passará por isso. Você não refleto sobre o ocorrido, não tira nenhum aprendizado disso. O tempo passa, você se apaixona por outra garota, começa a namorar e, anos depois, ela também te trai.

Porra!

Você fica puto da cara de volta, mas, dessa vez, você faz as coisas de um jeito um pouquinho diferente. Você reflete por que diabos aquilo está acontecendo de volta. Você se pergunta: qual lição eu estou perdendo aqui?

Sim, porque, de acordo com a lei do Karma, há uma lição a ser aprendida e, se você ignorá-la, ela simplesmente voltará como uma nova oportunidade de aprendizado no futuro.

Não é uma questão de certo ou errado. Não é uma questão de merecimento.

Trata-se de aprendizado e mudança, de evolução.

E não é disso que se trata um arco de personagem em uma obra de ficção?

Nos livros e filmes, Os personagens começam de um jeito e passam por uma série de provações até se tornarem aquilo que devem ser. Aquilo que precisam ser para vencer as adversidades finais.

Luke precisou aprender, mudar e evoluir. Assim como Frodo. Assim como Harry Potter. Assim como Katniss… e assim como a gente.

Nas histórias trágicas, normalmente vemos personagens orgulhosos que recebem diversas oportunidades de mudança (pra melhor), mas eles se recusam a embarcar nisso. Eles desafiam os deuses e os demônios e continuam fazendo as coisas do seu jeito distorcido. O resultado é a morte ou uma vida de miséria.

Não sei se acredito ou não em Karma, mas que consigo ver um paralelo entre isso que acabei de falar com um monte de casos reais ao meu redor, ahhh consigo.

Tá, Nano, mas o que você quer dizer com isso tudo?

Que da próxima vez que algo ruim acontecer, você pode ficar bravo, chateado, triste e procurar amigos para desabafar. Mas, talvez, valha a pena também parar por um instante e refletir se há alguma lição oculta ali.

Será que dá pra aprender algo sobre si mesmo e se tornar um pouquinho melhor?

Mesmo que o karma não exista, na pior das hipóteses você estará praticando para a criação de personagens e de uma boa narrativa de ficção.

Porque a ficção, afinal de contas, ainda precisa fazer sentido.

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