Formas de se contar uma história: narrativa circular

E por fim chegamos ao terceiro e último tipo de narrativa que abordaremos nessa semana. Chegou a hora de falarmos sobre a narrativa circular.

Esse formato de narrativa, que se intercala tranquilamente com os outros formatos que vimos, é caracterizado pela sua natureza de ciclo fechado.

Se a narrativa linear poderia ser representada por uma linha reta e a não-linear por um ziguezague, a circular, obviamente, assume a forma de um círculo.

Aqui, o que temos é uma história em que o ponto de partida e o de chegada coincidem. Ou seja, o leitor inicia sua jornada pela história pelo ponto A, passa por todos os outros pontos (sejam eles lineares ou não) e termina novamente no ponto A.

Mas então a narrativa circular não nos leva a lugar nenhum, Nano?

Nada disso, meu pequeno aprendiz Sith. Não esqueça que, em algumas viagens, o importante mesmo não é o destino, mas todo o trajeto que nos levou até lá.

Sendo assim, embora o personagem e o leitor concluam a experiência no mesmo ponto, algo foi aprendido ou assimilado no caminho… e isso muda tudo.

Talvez o personagem comece e termine sua jornada sentado no sofá de casa, mas sua percepção sobre seu lar mudou radicalmente graças a tudo o que ele viveu.

Talvez o personagem inicie a história com uma ideia na cabeça e, ao final, ao se deparar com a mesma ideia, ele tenha compreendido algo que não podia ver antes.

Talvez a história se inicie em um ponto-chave e todo o seu corpo não passe de um grande flashback, uma reflexão necessária para que o personagem decida como tudo deve terminar.

Talvez a situação e o próprio personagem sejam exatamente os mesmos no começo e no fim, porém, o leitor descobriu algo ao longo do livro e isso muda a forma como ele – leitor – encara aquela mesma situação e personagem.

As narrativas circulares possuem o estranho poder de nos fazer parar e refletir sobre coisas, lugares e ideias. Elas nos fazem expandir nossa capacidade interpretativa e entender que muitas coisas funcionam em ciclos… mas que, se estivermos atentos, há todo um infinito entre esses ciclos.

Talvez seja por isso que gostamos tanto de histórias, por que podemos vivenciar a vastidão que existe mesmo nos menores detalhes. De novo e de novo e de novo… mas sempre com alguma coisinha diferente.

Isso explica porque não nos incomodamos com o fato de que toda história é, na verdade, a mesma. Afinal, toda história trata, fundamentalmente, da jornada de alguém em busca de algo que precisa/deseja e sobre como ele deve superar adversidade para isso.

(E assim eu concluo esse texto sobre narrativas circulares, exatamente do mesmo jeito que comecei o primeiro post da semana, em um ciclo fechado).

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