Formas de se contar uma história: narrativa não-linear

No post anterior vimos que a maneira como você escolhe contar a sua história pode fazer uma grande diferença no resultado final. Muitas vezes, inclusive, a forma acaba sendo o fator que transforma uma narrativa que poderia ser mediana ou banal em algo verdadeiramente marcante.

Vimos que essa forma pode ser expressa na sequência de acontecimentos da história – ou, melhor dizendo, na sequência que você, autor, decide mostrar esses acontecimentos para o seu público leitor.

A forma mais tradicional, simples (não simplista) e direta de fazer o leitor captar a história é por meio da narrativa linear, aquela que transmite os acontecimentos na exata ordem em que os personagens os experimentam.

Porém, existem outras formas e hoje falaremos da narrativa não-linear.

A narrativa não-linear, como o próprio nome já diz, é aquela que revela trechos da história ao leitor não na sequência em que ocorrem, mas de uma forma mais fragmentada. Isso cria um verdadeiro quebra-cabeça que deve ser montado por quem lê, para que a narrativa possa ser absorvida e totalmente compreendida.

Mas por que fazer isso, Nano?

Muito simples.

Para gerar efeitos emocionais que têm a ver com as sensações que você quer transmitir na sua história ou que estão conectadas à natureza ou a uma situação atípica dos próprios personagens.

Por exemplo: digamos que você queira criar uma história em que o protagonista é absurdamente cruel, mas você sabe que isso seria um problema na hora de gerar identificação com o leitor. O que você faz? Você usa uma narrativa não-linear, mostrando, nos primeiros capítulos, esse personagem tomando ações que geram identificação.

Talvez você o mostre sofrendo injustiças. Quem sabe você o revele como alguém uma vez bondoso, mas que teve o coração partido de um jeito brutal. Talvez você jogue o holofote em um momento em que ele revela ter grande respeito por certos valores. Seja como for, depois que a conexão foi feita, você pode saltar para momentos maldosos do personagem na atualidade. Aí, quando sente que o leitor está se distanciando demais dele novamente, você joga outra cena de outro momento anterior, em que ele foi digno de identificação… e assim por diante.

Outra boa razão para usar uma narrativa não-linear é quando o próprio personagem está com a mente confusa e você quer que o leitor experimente uma sensação semelhante. Seria o caso de um protagonista com um tipo de amnésia ou então com outros problemas psicológicos.

Por fim, uma última razão é justamente aumentar a sensação de tensão, obrigando o leitor a ficar atento e ligar os pontos, caso queira descobrir o que está acontecendo. Um ótimo exemplo disso é o livro “Onde Cantam os Pássaros”.

De qualquer modo, o que você deve ter em mente ao criar uma narrativa não-linear é que precisará encaixar todo esse vai e vem dentro da estrutura geral de trama, com seus pontos de virada. Afinal, só porque a história não está em ordem, não significa que os momentos de grande impacto emocional mudam. Eles não mudam. Os pontos de trama seguem exatamente nos mesmos lugares de sempre e cabe a você fazer tudo isso funcionar em harmonia, combinado?

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