Guerra Civil: versão brasileira

Texto publicado no site Update Or Die


 

Tem um clima de treta no ar. Até o final de março poderemos conferir, em alta definição, o pau comendo solto entre Batman e Superman e entre Capitão América e Homem de Ferro.

No filme da DC, um Batman amargurado por anos de combate incessante ao crime (que lhe renderam grandes perdas pessoais) resolve colocar à prova um certo alienígena superpoderoso, mas inexperiente, que causou grandes danos a Metrópolis e deixou um monte de gente inocente morrer.

É claro que, ao final do longa, o Batman perceberá que o Azulão é um cara absurdamente ético que deseja fazer o bem ao seu planeta adotivo. Superman também vai descobrir que o Morcego de Gotham é inteligente e muito mais preparado mentalmente do que ele próprio para a missão de combater o mal. Sendo assim, os dois, unidos, conseguirão tirar o que há de melhor um do outro,formando as bases para uma sociedade que servirá de bússola moral para todos nós: a Liga da Justiça.

Já o novo filme da Marvel trará seus dois principais líderes em um conflito aberto devido a uma divergência ideológica. O Homem de Ferro acredita que os super-heróis devem ser registrados e controlados enquanto que o Capitão América acha que isso é uma afronta às liberdades civis, além de uma Caixa de Pandora que, se aberta, deixaria os super-seres à mercê de interesses políticos.

A trama do filme será diferente daquela dos Quadrinhos – e muito menos complexa, aparentemente -, mas a essência é essa aí. Briga por visão política.

O que me remete à guerra que temos visto no país, entre gente que pede o impeachment da presidenta e gente que é contra essa medida. Uma divergência que já deixou de ser respeitosa há um bom tempo e que, ao invés de envolver debates ideológicos, parece preferir trocas de ofensas nas redes sociais, compartilhamento de piadinhas e tentativas de ridicularizar o outro lado.

O resultado: amigos dando unfollow em amigos, casais discutindo e familiares sacrificando para sempre aqueles grandes e divertidos almoços. Tudo porque o primo apoia tal candidato de direita ou porque a tia não para de falar que golpistas não passarão, ou porque o filho publica 500 posts por hora xingando a direita/esquerda.

Conversa mesmo? Zero. Apenas treta. Nada que vá, de fato, trazer algum avanço.

Diante dessa situação, eu não tive como não rir com a estranha coincidência de termos tantas brigas acontecendo ao nosso redor enquanto heróis fictícios também resolvem suas diferenças na porrada.

Sendo assim, resolvi fazer um exercício. Uma brincadeira. Achei que poderia ser divertido imaginar esses heróis das telas como brasileiros vivendo esse momento tão conturbado ao nosso lado. Eis o que imaginei:

Bruce Wayne seria um empresário liberal que quer um estado menos paternalista, com menos influência na iniciativa privada. Ele também acredita que as pessoas devem assumir a responsabilidade pelos problemas do país em suas próprias mãos e por isso usa sua fortuna para sair por aí à noite, vestido de Batman, espancando traficantes, sequestradores e ladrões de caixas 24h. Até agora não espancou nenhum político corrupto ou empresário chegado a propinas, no entanto.

Clark Kent seria um blogueiro ligado à esquerda, que vive escrevendo sobre o Superman como um símbolo do que podemos fazer se trabalharmos todos juntos e apoiarmos as causas sociais. O que interessa é colocar a mão na cabeça das pessoas e fazer um carinho. E daí que os impostos estão abusivos e que milhares de pequenos empresários estão sendo obrigados a encerrar suas atividades todos os dias, aumentando o desemprego? O Superman é muito maior que isso e não enxerga esse problema, mesmo tendo visão de raio-x.

O humilde Peter Parker se vê em uma situação complicada, coitado. Em casa, sua tia é uma fanática apoiadora do governo e adora justificar seu comportamento pelo fato de ter podido comprar o imóvel onde vivem graças ao “Minha Casa, Minha Vida”. Só que Peter trabalha como fotógrafo para um jornal de direita, cujo editor não tem a menor vergonha de dobrar pontos de vistas e ajustar fatos para que se adequem à sua visão radical. Mas o patrão nunca atrasou um pagamento e se esforça para não demitir ninguém, mesmo na crise. O pobre Peter não sabe qual é o seu alinhamento político, se sentindo como uma aranha balançando na teia… de lá pra cá, de cá pra lá, como diz a musiquinha.

O Capitão América (ou Capitão Brasil, no caso), mesmo ficando quietinho na dele, seria ofendido e destratado. Afinal, ele é um soldado e representa a escória que participou da Ditadura. Ninguém liga que ele tenha passado as décadas do governo militar congelado em algum imenso bloco de gelo por aí e nem para o fato dele ter lutado ao lado dos nossos pracinhas e arriscado sua vida pelo país. Se é militar, deve ser pró-ditadura. #NãoVaiTerGolpe.

E o que dizer do nosso Homem de Ferro, Tony Stark? O empresário, filantropo e celebridade apoia o governo, mas se borra de medo de ser citado na Lava Jato. Afinal, já molhou algumas mãos no passado para garantir alguns contratinhos para suas empresas. Boatos por aí dizem até que ele já presenteou um ex-presidente com pedalinhos tecnológicos. Mas tudo isso foi feito com um bem maior em mente. Não tem problema se os fins justificarem os meios, certo?

Mas acho que quem sofreria mesmo é a Mulher Maravilha. Ela defenderia o direito ao aborto, pediria por condições igualitárias de carreira e exigiria mais respeito às mulheres no dia a dia. Em resposta ouviria gritos de gostosa, vadia e feminazi.

Eu sei, eu sei. Esses são exemplos absurdos e visões exageradas.

Tudo foi levado ao extremo.

Mas, infelizmente, é essa visão que parece tomar conta das nossas ruas e redes sociais.

Extremismo. Dois lados. Dois times. Inimigos.

Quem ganha eu não sei, mas certeza que uma galera sai perdendo.

E aí, você consegue imaginar mais algum super-herói em sua versão brazuca? Faça a experiência com um certo distanciamento e você vai ver que, além de divertida, a brincadeira até que ajuda a refletir. Depois não se esqueça de dividir sua ideia aí nos comentários.

#teamdeadpool

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