O Mínimo Que Você Precisa Saber Para Contar Uma História

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Este texto aqui é antigo. Muito antigo. Resolvi relê-lo mais para ver se eu falava muita besteira no passado, mas acabei me surpreendendo com quão útil ele me foi, mais uma vez.

Então, se você tem vontade de criar uma narrativa e não sabe por onde começar, dê uma olhada. Talvez o meu eu do passado possa ajudar.

A Verdade

Quase todo mundo pode criar histórias. O storytelling não é exclusividade de gênios talentosos que fazem fortunas com bestsellers. Embora o talento exerça seu papel, ele pode ser sobrepujado pela dedicação e trabalho duro.

O que você precisa é de comprometimento.

A primeira coisa a fazer é consumir histórias. Leia, assista a filmes e séries, escute os causos do tiozinho do bar, leia de volta. Mas faça tudo isso como um criador. Preste atenção aos mecanismos e engrenajens por trás daquilo que está sendo transmitido a você. Quais pontos chamam a atenção? Existe uma estrutura por trás? Algum personagem se destaca? Você entendeu aonde quero chegar.

A segunda coisa a fazer é praticar. Escreva, desenhe, narre, jogue RPG, faça o que quiser, mas se force a contar histórias. Não tem como escapar. A prática vai te ensinar coisas que nem décadas de estudo teórico são capazes de trazer. Pratique até o storytelling virar uma segunda natureza.

A terceira coisa a fazer — e sobre a qual falarei de forma mais aprofundada — é conhecer as regras. Sim, polêmica à vista!

Muita gente diz que conhecer as técnicas de narrativa prejudica a criação, tira a originalidade, banaliza o artista. Bullshit. Ninguém está dizendo para você ignorar a sua voz e seguir uma receita de bolo, mas, até mesmo para ser original, é preciso conhecer as regras. Ou então como você poderá quebrá-las?

As estruturas narrativas são constantemente aprimoradas, mas estão por aí desde a época das cavernas. E por um motivo bem simples: nós percebemos a nossa existência por meio de uma estrutura de história. Nossa vida é um apanhado de histórias com começo, meio e fim, cheia de conflitos e antagonistas. Nada mais justo do que se aproveitar dessa estrutura para criar livros, filmes, comerciais, etc.

Conheça as regas.

A Preparação

A criação começa muito antes de você sentar e botar seus pensamentos no papel.

Alguns storytellers gostam de desenvolver a ideia enquanto escrevem. Outros fazem resumos enormes, com todos os detalhes importantes da trama. Há ainda os que ficam no meio do caminho, anotando elementos chave e deixando pra descobrir o resto junto com os personagens.

Independentemente do que você queira fazer, tenha respeito pelo papel da pesquisa. Estude sobre aquilo que você quer escrever, leia livros sobre o assunto, fale com profissionais. Preencha a sua mente com matéria-prima e confie no seu cérebro para criar conexões inovadoras.

Considere ter uma boa noção do clímax da sua trama o mais cedo possível. Ao saber o destino, fica mais fácil traçar as rotas até lá e entrelaçar os elementos que tornarão o clímax não só possível aos olhos do receptor, mas também inevitável.

Esteja sempre com um caderninho. Einstein disse que suas melhores idéias surgiram quando ele não estava trabalhando (a Teoria da Relatividade apareceu quando ele estava tomando banho). Então mantenha um caderno a postos.

A Escrita

Existe uma penca de livros sobre técnicas criativas por aí, mas hoje vamos falar sobre o básico: o bom e velho Modelo Dramatúrgico Clássico.

Este modelo se divide em 3 atos e conta com a presença de 3 elementos cruciais:

– Personagem

– Objetivo

– Conflito

A coisa é simples. Alguém quer alguma coisa e precisa superar obstáculos para conseguir. Que tal analisar esses elementos separadamente?

Personagem

O principal recebe o nome de protagonista. É ele quem possui o objetivo principal da história e sofre o maior conflito. Deve ser empático e realista. Não pode ser uma pessoa perfeita, pois isso causa tédio. Sua função é gerar identificação. O leitor precisa se identificar com o personagem e com as dificuldades sofridas por ele.

Todo bom personagem é composto de conflitos internos e externos. A maneira como ele lida com estes conflitos nos mostra quem ele é.

É possível revelar o personagem contando sobre ele (ou fazendo outros personagens contarem) ou então mostrando. Mostrar é sempre melhor. “Atos falam mais que palavras”.

Há 4 formas básicas de se mostrar:

-Ação do personagem;

-Fala do personagem;

-Aparência do personagem;

-Pensamento do personagem (esta forma possui uma capacidade enorme de criar identificação).

Uma história deve combinar e alternar estes métodos.

Objetivo

É aquilo que o protagonista quer, o que é vital para ele. Em toda história é necessário que haja um objetivo principal, mas podem haver objetivos secundários — tanto por parte do protagonista como por parte de outros personagens. Os objetivos secundários são comumente usados em tramas paralelas.

O objetivo deve ser difícil de obter, já que isso cria emoção e empatia (afinal, alguém aí já conquistou algo de graça?). Todavia, não pode ser impossível, sob risco de causar desinteresse por parte do espectador.

O protagonista deve estar motivado a conseguir o objetivo. Precisa sentir a questão como caso de “vida ou morte”.

Mantenha o objetivo principal bastante claro. Ele é o motor da história.

Assim que o receptor conhece o protagonista e seu objetivo, ele enxerga o caminho a se percorrer.

Conflito

Entre o protagonista e o seu objetivo ficam os conflito. Simples assim.

Este elemento é o tempero da receita. Sem ele tudo é chato. Quanto melhor o conflito, melhor será a trama. Nada ilumina mais o personagem do que uma boa luta.

Não podemos deixar a história com apenas um conflito. Eles devem ser apresentados em quantidade e crescer de intensidade ao longo da história. Lembra das fases do Super Mário? Cada vez que você superava uma, a outra ficava mais difícil, não é? Aqui a coisa funciona do mesmo jeito.

Os obstáculos não precisam ser necessariamente explicados, mas devem ser verossímeis. É importante fugir da gratuidade.

Em algum momento, porém, o conflito deverá ser resolvido – para o bem ou para o mal. O protagonista consegue ou não seu objetivo.

Sobre a solução dos conflitos:

-Cuidado com soluções improváveis, forçadas e baseadas na coincidência;

-Organização dos conflitos: devem ter uma estrutura ascendente, ficando gradativamente mais difíceis;

-O Antagonista: é o conflito encarnado num personagem. Deve ter um Objetivo próprio e verossímil que vá de encontro ao desejo do protagonista.

Os 3 Atos

Ato I — Começo

É a introdução da história. Aqui mostramos o protagonista e o mundo no qual ele está inserido. Surge o objetivo e nada mais é igual. O mundo vira de cabeça para baixo e a ordem é abalada. O personagem precisa ir atrás de seu objetivo, ele precisa agir.

O Ato I termina quando o objetivo e a importância do mesmo ficam claros na cabeça do leitor. A ação propriamente dita começa a partir deste momento.

Ato II — Meio

Onde a ação se desenvolve. O protagonista tenta conseguir seu objetivo, mas se depara com conflitos. É a maior parte da trama.

Não tenha medo de ser maldoso. Complique a vida do protagonista. Nada de piedade. Ninguém quer ouvir uma estória na qual tudo vai bem.

Uma boa forma de alongar e adicionar complexidade à obra é por meio de tramas paralelas; objetivos secundários e histórias menores dentro da história propriamente dita.

O Ato II se dirige a um momento no qual o protagonista precisa se comprometer com o clímax. É a batalha final. O tudo ou nada. Em caso de sucesso, ele salva a galáxia. Caso ele falhe, a Estrela da Morte esmagará a Aliança Rebelde.

Seu herói vai topar a parada? Claro que vai.

Ato III — Fim

A conclusão da história, quando o protagonista alcança ou não o objetivo. Devemos estar prontos a responder a pergunta: “O Herói consegue o que quer?”

Após darmos a resposta, temos um momento de descompressão e encaminhamos o fim.

Pode ser longo, como o final de O Senhor dos Anéis ou absurdamente curto, como o fim de Telma e Louise (o Ato III corresponde à imagem congelada das duas dentro do carro… deve durar cinco segundos).

Pronto. Disse o que precisava dizer? Explicou o que aconteceu aos personagens? Então acabou. Não enrole 😉

A Revisão

Aqui começa o trabalho sujo. Nunca abandone a revisão, é ela que vai tornar o seu trabalho memorável.

Revisar não é somente corrigir erros e substituir palavras. Revisão é dar ordem, adicionar o que está faltando, melhorar cenas, aprofundar e, principalmente, tirar tudo o que não for essencial para a estória.

Stephen King tem uma equação bem didática sobre a segunda versão de suas obras:

2ª Versão = 1ª Versão — 10%

Pense nisso como a lapidação de uma joia.

Você deve ser firme, largar o aspecto criador e assumir o papel de editor. Não é hora de apego emocional. Difícil cortar tudo aquilo, né? Eu sei, mas é necessário.

Uma boa dica é aguardar cerca de um mês antes de começa a editar. Isso ajudará a criar o tão necessário distanciamento.

Também é Importante

Um storyteller não pode parar aqui. Sugiro a pesquisa de alguns temas:

-Ponto de Vista;

-Ambientação;

-Showing VS. Telling;

-Sentimentos e Pensamentos do Personagem.

Claro que há muito mais do que isso a se estudar, mas não dá pra abordar todo o assunto aqui. O aprendizado nunca termina. Se você quer mesmo ser um contador de histórias, seja humilde e admita que sempre haverá algo novo a se considerar.

Analise os mestres, se dedique, leia, escreva, dê duro, mas, acima de tudo, seja persistente. Ser um contador de histórias não é fácil, mas vale a pena.

Há algo primitivo e verdadeiro nisso que nos conecta ao que há de mais humano em nós. Agora, me conte uma história…

Livros Recomendados:

Book in a Box: Cena e Estória, James McSill e Nano Fregonese

Desenhando Quadrinhos, Scott McCloud

Escrita Criativa, Renata Di Nizo

Immediate Fiction, Jerry Cleaver

Jornada do Escritor, A, Christopher Vogler

Manual do Roteiro, Syd Field

Oficina de Escritores, Stephen Koch

On writing, Stephen King

Plot & Structure, James Scott Bell

Poder do Clímax, O, Luiz Carlos Maciel

Roteiro de Cinema e Televisão, Flávio de Campos

Story, Dave McKeen

Vencendo o Desafio de Escrever um Romance, Ryoki Inoue

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