IT: você vai flutuar também

Texto publicado no Update Or Die.


Ainda lembro da careta de nojo que fiz quando li, pela primeira vez, que um remake de IT estava sendo produzido. Eu realmente acreditava que seria uma porcaria.

Calma que a favor da minha descrença havia o fato de que as únicas adaptações para o cinema de obras de Stephen King que eu tinha curtido eram Louca Obsessão e as três dirigidas por Frank Darabont (Conta ComigoÀ Espera de Um Milagre e O Nevoeiro).

Sendo assim, se era pra ter um pouco de esperanças em futuras adaptações, eu preferia colocar minhas fichas em A Torre Negra – até porque seria difícil errar tendo Idris Elba e Matthew McConaughey no elenco.

Eu estava enganado. E como é bom quebrar a cara.

Pois é. Fui assistir essa nova versão de IT no fim de semana de estreia. Terminei a sessão, fui dar um passeio e voltei pra assistir novamente.

O filme é incrível.

Acredito que todo mundo conheça a história, mas vale um rápido resumo:

Em uma cidadezinha interiorana existe uma força maléfica que acorda a cada 27 anos para se alimentar do medo e da carne dos habitantes. Um grupo de crianças decide enfrentar esse monstro com a força de sua amizade. Ah… detalhe: o monstro pode assumir diversas formas, mas o desgraçado prefere aparecer como Pennywise, o Palhaço Dançarino.

Simples, né?

Olhando assim a trama pode até parecer bobinha, mas é aí que a genialidade de Stephen King faz toda a diferença.

Como eu disse aí em cima, Pennywise é uma força assustadora, um ser antigo que explora os piores medos das pessoas para manipulá-las e se alimentar delas. Sua força está no medo. Medo de quê? Bem, aí varia… para mim, com certeza seria a minha fobia de mariposas, para um amigo meu seria o medo de falar em público, para você talvez seja o medo de ser queimado vivo.

O medo, embora uma de nossas mais poderosas emoções, jamais é igual para duas pessoas. Ele assume diferentes formas, tal como Pennywise. E aí está a excelente escolha do título da obra: IT.

Infelizmente não temos uma tradução assertiva para IT. Tudo bem, pode ser definido como “a coisa”, mas é muito mais que isso. IT é algo mais genérico, mais abstrato, algo para substituir o que não conseguimos traduzir em palavras.

– Você tem medo do quê?

– Ah, você sabe… tenho medo de IT, medo daquilo.

O vilão em IT, então, é a representação dos nossos piores temores. Uma ameaça ultra poderosa que tem predileção pela carne de crianças. Ele é sinistro e assustador e essa interpretação feita por Bill Skarsgard com certeza será responsável por amaldiçoar toda uma nova geração com o medo de palhaços.

Mas ele é menos assustador que a realidade.

Ao criar suas histórias de terror estapafúrdias (seres cósmicos, alienígenas escatológicos, doutorezinhos carecas, etc), Stephen King, por contraste, nos chama a atenção para o horror do comum. O horror que acontece todos os dias na casa ao lado, nas escolas, nos ônibus. E é desse jeito que ele nos apavora de verdade.

Sim, porque quando você tem mais medo e ódio de um babaca adolescente que abusa dos mais fracos do que de um palhaço que come garotinhos, aí você compreende que o terror não é mais uma coisa da ficção e que ele pode estar te esperando logo depois de você deixar a sala de cinema.

O grande mérito dessa nova adaptação de IT é ter compreendido isso. Ter compreendido a alma da história criada por King.

Então, ao assistir esse filme, preste atenção no monstro-palhaço, mas preste atenção também em todos os perigos assustadores que rondam a vida das crianças: pais abusivos ou supercontroladores, valentões violentos, predadores sexuais escondidos nas profissões mais inocentes, guerras de pedras.

Tudo isso é realçado pela ótima direção do longa. Note como, sempre que um adulto está em cena, há uma aura de tensão e desconforto. Isso aumenta a sensação de isolamento e passa a ideia  de que os adultos não são um porto seguro. Eles não podem ajudar. Tudo o que você tem para sobreviver aos horrores ao redor são os seus amigos… sorte que, nessa fase da vida, estão os nossos melhores amigos, não é?

O que me leva ao grupo de jovens atores que interpretam os protagonistas da história, o Clube dos Perdedores. Todos mostram uma química incrível em tela, conseguindo transmitir suas personalidades e características sem enrolação. É graças a eles que vivemos a montanha-russa de emoções, indo do medo ao riso e vice-versa em questão de segundos. Palmas pra eles!

Além do trabalho da criançada, é preciso tirar o chapéu para Bill Skarsgard. Ele faz um excelente Pennywise, com seus trejeitos estranhos e entonação incômoda. A cena em que ele conversa com um garotinho enquanto o encara de forma luxuriosa e saliva ao mesmo tempo já é uma das minhas favoritas na história dos filmes de terror. A cena é poderosa porque você consegue entender o que está prestes a acontecer e não pode fazer nada… e ser mera testemunha de uma crueldade contra crianças é uma das coisas mais horríveis que eu posso imaginar.

IT já é sucesso de crítica e público, tendo batido o recorde de bilheteria para o período. Sendo assim, é quase certo que teremos uma continuação com a versão adulta dos nossos heróis (o livro de King se passa em dois arcos temporais) e mais uma boa dose de Pennywise. Até lá, porém, dá tempo de se divertir muitas vezes com esse excelente primeiro capítulo ou então, como sugeriu o próprio Stephen King, ler a obra original.

Não deixe de assistir a esse filme, mas vá preparado. Apesar de IT ser inegavelmente uma história de medo, você vai gargalhar alto em muitos momentos. Vai lembrar da sua própria infância. Vai ter o coração partido também… mas isso faz parte, afinal, crescer nunca foi fácil.

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