Kealan Patrick Burke: o horror que vem de dentro

É provável que você ainda não tenha ouvido falar de Kealan.

Até algumas semanas atrás eu não fazia ideia de quem era esse cara.

Mas aí aconteceu uma daquelas coisas mágicas do maravilhoso mundo do Kindle e, em um dia de promoções de ebooks importados, eu pude comprar um dos livros desse autor por poucos centavos de real.

Aí está uma das minhas coisas favoritas dos ebooks da Amazon, a possibilidade de descobrir ótimos autores, mas que não são conhecidos o suficiente para que alguma editora nacional se arrisque a trazer pra cá.

Enfim, eu me deparei com uma capa perturbadora de um livro chamado Sour Candy, vi que tratava de horror cósmico (salve, ó grande Chtullu), li algumas páginas e comprei.

Acabei lendo a novela em uma manhã insone (eu tinha acordado às 5h) e fui imediatamente comprar outro livro do cara logo após terminar a última página.

Kealan não é um autor sem falhas. Ele não é um Stepehn King. Mas é muito competente em gerar aquela sensação incômoda que todo bom livro de terror deve trazer em sua essência e, por isso, achei que seria legal comentar os seus pontos fortes.

Você já reparou que, por melhor que seja um filme de terror, um bom livro do gênero sempre é mais assustador? Por quê?

Um livro competente de terror consegue fazer o leitor ouvir barulhos estranhos (eu ouvia o meu próprio coração em The Tell-Tale Heart, de Edgar Allan Poe), consegue tornar as sombras muito mais densas e nos obrigar a deixar uma luz acesa no corredor. Um bom livro de terror tem o potencial de ativar a imaginação e nos fazer “ver” coisas de maneira muito mais sinistra do que os olhos seriam capazes.

Um bom livro de terror dá mais medo. Simples assim.

Mas por quê?

Eu arrisco dizer que é porque a experiência da leitura nos pega de um jeito muito mais impactante, porque nos pega pelo lado de dentro.

Ao assistir uma cena assustadora em um filme, nós certamente temos medo. Mas é isso, estamos assistindo. Estamos vendo algo acontecendo objetivamente.

No livro o buraco é mais embaixo.

No livro, nós passeamos pelos pensamentos e emoções dos personagens. Sentimos o que eles sentem. Acompanhamos toda a angústia, todas as funções biológicas de um corpo em estado de pavor, toda a antecipação de uma desgraça. Essa antecipação, se bem trabalhada, pode ser muito mais horrível do que uma morte, por exemplo.

E é aí que vi o maior mérito de Kealan.

Veja só como ele construiu o primeiro parágrafo de sua novela Sour Candy:

Quatro meses após o dia em que encontrou o garoto no Walmart, o último dos dentes de Phil Pendleton caiu.

A partir desse momento a história retorna 4 meses e vemos toda a cadeia de acontecimentos assustadora que prende o protagonista no pior dos tipos de prisão. Ele é feito refém por uma criança que não é o que aparenta e toda a sua vida começa a ser arruinada, um dia de cada vez. Sua namorada vai embora, ele perde seu emprego, seus amigos desaparecem e seu físico começa a se degradar de um jeito enojante.

E todos os seus dentes vão cair.

Ao terminar as primeiras páginas, eu sabia disso, mas eu ainda não sabia como. E pensar nisso – aguardar por isso – era muito mais angustiante do que saber.

Kealan já tinha me prendido com uma simples frase.

Mas claro que a coisa não para por aí. Eu fiquei realmente impressionado com a capacidade do autor de penetrar nos pensamentos e sensações do personagem e nos fazer dividir com ele seus maiores medos.

Há uma cena, logo após um acidente de carro, na qual o personagem é socorrido e colocado deitado na grama ao lado da rua. Ele está ferido. Suas costelas estão quebradas. Há sangue por todo lado. O coitado não consegue nem se mexer.

Mas isso é apenas algo a se visualizar. O horror de verdade ocorre do lado de dentro.

Kealan começa a descrever a enervante sensação de se estar ferido, com dor, imobilizado, totalmente incapaz de se defender, enquanto uma mulher caminha em sua direção com uma expressão demente na face. Ela é uma mulher magra, frágil, que anda muito lentamente. Mas ainda assim ela representa uma ameaça. E se ela resolvesse te machucar? E se ela resolvesse te matar ali, o que você faria?

Nada.

Você não seria capaz de fazer porcaria nenhuma a não ser sentir ainda mais dor e perder tudo o que tem e o que poderia ter um dia.

Isso é horror!

Em outro livro de Kealan, Kin, há um diálogo entre um dos personagens e sua bizarra mãe. Toda a cena se passa dentro de um quarto fétido no qual a monstruosamente obesa mulher apenas fala e toca de leve o seu filho. Ela não pode fazer nenhum mal físico ao rapaz (ela é tão gorda que é incapaz de se levantar, sendo obrigada a cagar e urinar ali mesmo… suas perebas e feridas se mesclando ao tecido do colchão), mas suas palavras são carregadas de uma ameaça terrível. Uma ameaça que só faz sentido pra nós, leitores, porque Kealan consegue nos levar para dentro do personagem e nos faz dividir com ele lembranças, reações físicas e pavores muito reais.

E isso é algo que um filme jamais seria capaz de fazer.

Como um filme poderia nos mostrar o que se passa no interior do personagem? Como nos fazer lembrar do que ele lembra, sentir a pele arrepiando com o toque da mãe, questionar a própria ordem divina do mundo?

Por meio de flashbacks? Voice over? Simbolismos? Isso jamais teria o mesmo efeito, você sabe.

A subjetividade é o campo da literatura por excelência. É nisso que ela se diferencia e se destaca.

Kealan Patrick Burke entendeu isso muito bem e transformou a habilidade de entrar no mundo interior de seus personagens em sua maior arma e, não tenho dúvidas, na chave para o seu sucesso.

Com certeza dá pra aprender com esse cara! 🙂

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