MINDHUNTER: QU’EST-CE QUE C’EST?

Texto publicado no Update Or Die.


Sim, a série é sobre psycho killers. Mas, ao contrário do que diz a música do Talking Heads (e que encerra o segundo episódio da temporada), fa-fa-fa-fa-fa-fa-fa-fa-fa-far better não é run away.

Melhor mesmo é parar tudo e ir maratonar essa bola dentro da Netflix.

A série, produzida por David Fincher (O Clube da Luta) – que também dirige quatro episódios e dá tom e linguagem à narrativa – foca em assassinos seriais, mas não da forma como a TV nos acostumou nos últimos anos.

Esqueça correrias, tiroteios, perseguições exageradas por becos escuros e brigas encarniçadas entre mocinhos e bandidos que rolam pelo chão sujo em duelos de força.

Nada disso.

Em Mindhunter o foco está em outro lugar e, embora eu não consiga lembrar de nenhuma grande sequência de ação ao longo dos episódios, permaneci tenso do começo ao fim dessa primeira temporada, relaxando apenas em alguns poucos momentos de respiro estrategicamente alocados.

Sim, eu cheguei a suar assistindo cenas de diálogos.

Mas estou me adiantando. Vamos começar falando um pouquinho sobre a ideia geral por trás da série – e vale dizer que a partir daqui você pode encontrar alguns spoilers, embora essa não seja uma produção pautada em surpresas.

SERIAL KILLER BEGINS

Mindhunter se passa nos anos 70, quando uma dupla de agentes do FBI ligada à ciência comportamental começava a entrevistar e a realizar pesquisas com psicopatas para entender como essas figuras pensam.

Hoje, graças a séries como Hannibal e Criminal Minds, estamos acostumados a ver agentes utilizando conhecimentos em psicologia e sociologia para decifrar as motivações, possíveis alvos e até mesmo características físicas de suspeitos de assassinatos seriais. Mas, naquela época, isso tudo estava muito no começo.

Naquela época, isso era visto como besteira e quem se dedicavam a esse tipo de estudo até mesmo sofria preconceito.

Nada que parasse os nossos protagonistas, claro.

A série é baseada em pessoas reais, pioneiros responsáveis pelo que hoje é a unidade de análise comportamental focada em serial killers do FBI, e nos inúmeros desafios que precisaram superar para serem levados a sério.

Não foi fácil convencer os colegas e superiores da validade daquilo que estavam fazendo. Não foi fácil ficar cara a cara e entrar na mente de monstros capazes de decepar cabeças e transar com elas.

E é por isso que a série é tão tensa.

Seja em corredores ascépticos e em salas esfumaçadas da central do FBI, seja em diferentes prisões pelos Estados Unidos, as cenas de diálogo emanam uma promessa de conflito constante. Nunca é mero bate-papo. Sempre temos lados opostos tentando levar a melhor no jogo de xadrez mental. É fo-da!

 

RITMO LENTO?

Sim, o ritmo de Mindhunter é mais lento. A trama vai cozinhando aos poucos, conforme novos ingredientes são inseridos e os protagonistas fortalecem suas relações – nem sempre pacíficas. Embora certamente existam críticos a essa lentidão, me parece uma escolha acertada de Fincher, que vai nos descortinando a ciência por trás da análise de perfis, fascinando com a mente de figuras tão complexas (embora monstruosas) e mostrando como aquilo tudo pode ser colocado em prática à serviço da sociedade.

O seriado também acerta ao mesclar elementos de séries procedimentais e séries seriais – seriais são aquelas que contam uma grande história, capítulo a capítulo (como Breaking Bad ou Game of Thrones), enquanto procedimentais são aquelas que contam uma historinha fechada a cada novo capítulo (como Criminal Minds e Simpsons). Em Mindhunter, vemos a grande história sendo construída aos poucos, mas também temos momentos fechados nos quais os agentes aplicam seus conhecimentos para solucionar alguns crimes Estados Unidos afora.

O formato é ótimo para trazer novidade e um pouco mais de movimento e o fato de os protagonistas precisarem viajar pela América para dar aulas/fazer entrevistas abre a possibilidade de se explorar diferentes casos reais sem que nada pareça forçado.

E OS SERIAL KILLERS?

Mas não dá pra falar de Mindhunter sem mencionar os diálogos com psicopatas famosos (infames?), em especial Ed Kemper. Este último, interpretado por Cameron Britton como um homem articulado e inteligente cuja mera presença física é capaz de deixar qualquer um nervoso, suga a atenção sempre que aparece na tela.

As conversas com Kemper são tão interessantes que me fizeram buscar pelos vídeos do verdadeiro Ed no YouTube, após terminar de assistir a série.

Além de Ed, essa primeira temporada trouxe os assassinos Monte Ralph Rissell, Jerry Brudos, Richard Speck (com direito a uma cena que merece o nosso “holly shit”), Darrel Gene Devier e Dennis Raider.

Esse último, mais conhecido como BTK (Bind – Torture – Kill) Killer, ainda não interagiu com os protagonistas, mas é a figura mais misteriosa até então. Em todo começo de capítulo vemos  uma rápida cena que detalha um pouco mais sobre esse assassino, aquecendo os motores para o que deve ser o vilão principal da próxima temporada ou da própria série. O BTK Killer é uma escolha interessante de antagonista justamente porque, na vida real, tinha o hábito de escrever cartas ridicularizando a polícia, detalhando seus assassinatos e até mesmo dando algumas pistas. Vamos ver como o seriado retratará esse que é um dos mais notórios assassinos seriais da história dos Estados Unidos.

Ah, vale dizer que, embora não tenha aparecido nessa primeira temporada, Charles Manson foi citado e, se Mindhunter continuar seguindo o livro em que foi baseado, podemos aguardar por essa entrevista no futuro.

Há muito mais por trás de Mindhunter – personagens, conflitos, possibilidades de trama e até mesmo uma dúvida que envolve o principal herói da história, que demonstra, ele próprio, algumas características bem comuns em psicopatas -, mas é melhor deixar você descobrir isso tudo por conta própria.

Acredite em mim quando digo que vale a viagem!

 

“Quando eu vejo uma garota bonita andando na rua, eu penso duas coisas. Uma parte de mim quer ser bem querido e doce com ela, e a outra parte imagina como seria a cabeça dela enfiada em um espeto.”

– Ed Kemp

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