Minha Primeira Surra

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Texto publicado no site Update or Die

Vadia mentirosa barata, falso respeito, falsa humildade — “filha do pastor” é o cacete. Eu vejo além do seu teatro falso. Você vai ser espancada amanhã e eu vou curtir essa surra que eu vou te dar.
– Ronda Rousey

Essas foram as palavras que Ronda Rousey, então campeã inquestionável do peso galo feminino do UFC, postou na sua conta de Instagram pouco após a pesagem polêmica, um dia antes da luta com Holly Holm.

O que aconteceu depois, como vimos, foi bem diferente.

Não vou entrar em detalhes sobre a vida, estilos de luta e jornadas das duas lutadoras. Já existe um monte de sites que falam disso. Sobre Holly Holm, teremos uma enxurrada de informações ao longo dos próximos meses. Sobre Ronda, bem, ela dispensa apresentações.

Eu quero focar no resultado da luta, no que ele representa e no que podemos aprender com ele.

Veja bem, qualquer um que diga que Ronda não é uma grande lutadora provavelmente não acompanha MMA ou então está com más intenções. Ela é talentosa e comprometida, além de ter pavimentado o caminho para as mulheres no esporte. Ela também se tornou um símbolo para o feminismo, mostrando que é possível ser independente, forte, bem sucedida e de grande personalidade… tudo isso sem abandonar a própria beleza. Em outras palavras, ela é foda.

Só que existe uma armadilha na fodice.

Quando você começa a achar que ocupa um patamar diferente do das outras pessoas, que as regras que servem aos outros não se aplicam a você, é quando você começa a arquitetar a própria ruína. E Ronda arquitetou a dela.

Ronda é uma lutadora bem completa. É comprometida, focada e tem fome de vitória. É dona do melhor judô entre todos os lutadores do UFC. Suas lutas-relâmpago impressionaram a mídia e também os fãs, que logo passaram a enxergá-la como uma espécie de super-heroína, alguém que não poderia perder.

As pessoas fazem isso. É normal. Buscamos heróis e queremos acreditar em seus feitos incríveis que nunca nos decepcionarão. E, no meio das lutas, isso é mais comum ainda. Vimos acontecer com George St. Pierre, Anderson Silva, Jon Jones. Nós, fãs, não podemos evitar.

Com os lutadores, no entanto, precisa ser diferente.

O erro que Ronda cometeu — e que outros lutadores cometeram antes dela –foi acreditar que ela era mesmo invencível. Que, além de ter o melhor judô, também tinha o melhor wrestling e a melhor trocação. Essa crença fez com que ela partisse para cima de uma das melhores boxeadoras da história.

Ronda se comportou como se a vitória já fosse um direito dela. E suas declarações davam sinais disso. Como alguém ousava falar dela? Como alguém ousava desrespeitá-la? Como alguém poderia se dar o direito absurdo de tentar mexer com seu psicológico? E, por fim, como alguém poderia ter a audácia de derrotá-la? Isso não poderia acontecer. Simplesmente não fazia parte da realidade.

Bom, Holly Holm não concordava. A “filha do pastor” se manteve calma e focada a cada passo do caminho. Não precisou gritar, não precisou fazer cara de malvada e não precisou ignorar o toque de luvas. Após destruir Ronda no octógono, ainda fez um discurso focado em gratidão.

Holly sabia que não era melhor que Ronda. E isso fez com que ela treinasse ainda mais, que empurrasse limites e que buscasse o aprimoramento. Afinal, ela não queria levar uma surra. Esse empenho de Holly é o maior elogio que Ronda poderia receber.

Já Ronda tinha certeza que era melhor que Holly e o resultado foi a derrota.

Mas, olha só, Ronda já perdeu antes. Se não no MMA, no judô. E sentiu. Mas o que aconteceu no sábado não foi uma simples derrota. Foi uma surra. E por isso Ronda nunca tinha passado.

Surras têm o poder de nos destruir ou de nos fazer dar aquele passo além. Elas abrem a chance de enxergarmos a vida de uma forma diferente. De abandonarmos a paixão cega que temos por nós mesmos e nos trazer de volta ao chão. Uma boa surra mantém as coisas em perspectiva.

Quantos de nós já conseguimos alcançar algo de real valor na vida sem termos passado por uma surra?

Talvez tenha sido uma surra literal, que nos deixou mais humildes. Talvez tenha sido aquele alerta do médico que disse que ou você mudava o estilo de vida ou não viveria para ver os netos. Talvez tenham sido as quatro empresas que você quebrou antes de finalmente ter sucesso no mundo dos negócios. Não importa.

O que importa de fato é que levar uma surra faz parte. Que nós devemos fazer o máximo para evitá-las, claro, mas que, invariavelmente, em algum momento, ela vai nos atingir. Ela vai nos machucar. Ela pode até nos nocautear por alguns instantes.

E a gente vai precisar levantar.

Vai precisar olhar em volta, para todas as pessoas que assistiram o nosso massacre, e lidar com elas. Vamos ter que engolir o orgulho e lamber as feridas. E vamos ter que lutar novamente. E essa luta será muito mais difícil, pois, agora, além de todas as dificuldades naturais, vamos precisar enfrentar mais um problema: o medo de levar outra surra. Afinal, cão picado por cobra tem medo de linguiça.

Mas existe o outro lado da surra. Aquele que começa a aparecer depois que você apanha uma, duas, três vezes. Aquele que revela que você pode mesmo ser surrado, que pode ir ao chão, mas que dá pra levantar. De repente você vê que aguenta, que não é feito de vidro e que a surra não pode mais ferir a sua alma. Ela pode ferir o seu orgulho, mas não mais a sua alma.

E é aí que a vida começa a ficar mais interessante. Quando você finalmente se dá conta de que não é invencível, de que pode apanhar, mas não tem mais medo. Você vai com tudo, não por achar que é o melhor, mas por saber que o pior que pode acontecer é você levar uma surra.

E, se levar, vai sobreviver. Afinal, já passou por isso antes.

Como você reage às derrotas é muito mais importante do que como você reage às vitórias.

Ronda levou uma surra. Agora vamos ver como ela vai se erguer e lidar com isso. Pode ser o início de uma fase ainda mais incrível na sua já impressionante história.

E você, já levou uma surra antes?

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