Navegando em Águas Desconhecidas: Como Escrever Sem Estrutura

Eu realmente acredito em estrutura. De verdade.

Acho que é uma ferramenta valiosíssima para todo escritor, uma base que dá segurança e ajuda a enxergar adiante quando a gente se aventura pelas mares bravios da criação.

O conhecimento técnico sobre a construção de tramas seria como um astrolábio ou sextante. Um amigo confiável que mostra o caminho.

Dito isso, ouso afirmar que ele simplesmente não funciona para certas pessoas. Ao invés de auxiliar, ele aprisiona. No lugar da confiança, ele traz angústias.

O que fazer então? Como ser capaz de escrever uma história utilizando de estratégia, mas sem se abraçar com as famosas técnicas de plot?

Usando a lógica e o bom-senso.

Antes de mais nada entenda no que consiste uma história. O que fez todas as histórias contadas, desde a época das cavernas até os dias de hoje? Do que elas tratam?

De uma busca.

Todas elas se trazem pessoas buscando coisas e que precisam superar problemas para conseguir essas coisas.

O que acontece no meio varia de história pra história, mas, em essência, é isso aí. Pode conferir. A sua história deve ser sobre isso também. Não existe razão para lutar contra essa realidade. Use o fato a seu favor.

Uma vez compreendido isso, você pode se sentar, criar um personagem marcante (já falei sobre isso aqui) e nos mostrar a busca dele ao longo de centenas de páginas.

Uma vez estabelecido qual é o objeto dessa busca, então cada novo capítulo deve ser um passo na jornada. Às vezes o personagem conseguirá chegar mais perto do seu objetivo, às vezes tropeçará e será preciso se reerguer antes de continuar.

Mas cada página escrita deixa o herói mais próximo do grande momento da história: o clímax. Aquele instante em que descobrimos se ele consegue o objetivo ou não, se a busca é bem sucedida, se teremos um final feliz ou uma tragédia.

É nessa sequência de momentos, de parágrafos e capítulos que entra a lógica.

A ficção é muito mais complexa do que a realidade, uma vez que ela precisa fazer sentido enquanto que a vida normalmente é uma coisa maluca, sem pé nem cabeça — há até quem diga que a nossa grande questão existencial é procurar sentido dentro desse grande caos.

Então, ao escrever, você precisa tomar todo o cuidado possível para que os acontecimentos narrados se encaixem uns nos outros, como peças de um quebra-cabeça que vai se descortinando conforme a história avança.

Em um livro, não há espaço para capítulos inúteis. Em uma história, não podemos nos dar ao luxo de contar aquilo que não importa.

Tudo deve estar ligado. Uma coisa leva a outra que leva a outra que leva a um fim não apenas factível, mas inevitável.

Se você quer escrever sem utilizar estruturas narrativas, se quer navegar por águas misteriosas, deve ao menos conhecer o seu barco e a sua tripulação bem o bastante para lidar com os monstros pelo caminho.

Entenda a essência da história e seja inteligente na forma de contá-la.

Stephen King disse que nunca usou estruturas. Para ele, bastava imaginar personagens complexos em situações terríveis e então observar esses personagens lutando para escapar.

Alguém querendo algo e enfrentando desafios. Tudo isso contado em uma sequência de eventos conectada e que faça sentido.

Simples. E, como todas as coisas simples, difícil pra caramba de acertar.

Antes de terminar, deixo ainda uma dica final para os que querem escrever sem estrutura: viva. Viva com grande atenção. Você verá que as nossas maiores conquistas são guiadas por uma espécie de estrutura invisível, uma trama que nos guia rumo a nossos sonhos e desejos. E, se sentimos isso na própria pele, reproduzir na página não pode ser tão difícil assim, não acha?

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