Ninguém vai salvar você

Quando a gente está criando uma história mais tradicional, uma das coisas mais importantes é pensar em um protagonista realmente heroico. Uma espécie de escolhido, que tem uma missão muito importante pela frente. O sucesso dele fará do mundo um lugar melhor enquanto que o seu fracasso pode significar sofrimento e morte.

Veja o caso de Harry Potter. Ou do Neo, de Matrix. Ou de Frodo. Ou de Katniss.

Todos esses personagens carregam uma grande carga por trás de suas jornadas e isso é necessário para que o leitor se envolva de uma forma diferenciada com os acontecimentos daquela história. Queremos, afinal de contas, que as pessoas torçam pelo nosso herói.

Na criação de história isso é muito bem-vindo já que histórias são grandes metáforas para a vida. O escritor quer inspirar o heroísmo dentro do leitor, quer criar uma conexão, quer transmitir valores. E isso funciona. Leve uma criança para assistir a um filme de super-heróis e depois veja se ela não sai da sessão fingindo ser o próprio personagem.

Já na vida não é bem assim.

Na vida, não existe nenhum herói vindo para resgatá-lo dos seus problemas.

Na vida, não temos nenhum salvador da pátria pronto para tornar tudo melhor ao vencer um senhor das trevas.

Na vida, você precisa assumir a responsabilidade.

Infelizmente vemos muito pouco disso, não é?

Então, me permita viajar um pouco e contar uma história real que aconteceu comigo nesse final de semana e me deixou muito incomodado.

Não sei se você sabe, mas eu moro em Curitiba-PR. E aqui no litoral do Paraná existe um ponto turístico bem lindo, chamado Ilha do Mel. Pois bem, nesse último fim de semana fui passar duas noites na Ilha, acompanhado da minha mulher.

Tudo muito legal, natureza, descanso, boa comida. Aí, na hora de vir embora, ficamos aguardando a embarcação no píer. Ao nosso lado, um senhor de cerca de 60 anos, acompanhado da esposa e do filhinho, batia papo com alguns moradores da Ilha. O assunto? Política.

Como não gosto que se metam nas minhas conversas, fiz o possível pra ficar na minha. Mas algumas coisas que ouvi ficaram reverberando na cabeça e aí não teve jeito, tive que transformá-las em texto.

Aquele senhor falava sobre como o Brasil está uma vergonha, sobre como perdeu os princípios, sobre como a família brasileira não tem mais valores, etc, etc, etc. Aí ele disse que o país tinha apenas uma alternativa, que era eleger o Bolsonaro. Segundo ele, que afirmava conhecer o político pessoalmente, o Bolsonaro é uma pessoa séria e de bem e, se for eleito presidente, vai colocar ordem na bagunça.

Não. Não foi isso o que me deixou incomodado. E eu não vou atacar o Bolsonaro, ou o Lula, aqui. Nenhum dos dois terá o meu voto, mas o lance da democracia é que cada um tem a sua opinião e aquele cara tem total direito à opinião e ao voto dele, por mais diferente que seja do meu.

O que me deixou incomodado foi o que ele falou depois.

Ele seguiu dizendo que, na verdade, o que a gente precisava mesmo é de uma nova Ditadura Militar e que o único erro dos militares na época do golpe foi que eles mataram pouca gente. Segundo aquele senhor, os militares deveriam ter matado mais. E eles deveriam assumir o controle do país para nos salvar.

Bom, não preciso nem mesmo explicar o horror de uma afirmação dessas, não é? Ela é tão rasa, superficial e simplista que me dói a cabeça só de começar a imaginar a lógica necessária para uma conclusão assim.

Dizer isso é não ter empatia. É ser incapaz de se colocar no papel de pessoas que tiveram os filhos, irmãos, maridos, esposas e amigos torturados e assassinados simplesmente por terem uma forma de ver a vida diferente da que se considerava a “adequada” na época.

Mas o que mais me chateou mesmo foi aquilo de achar que alguém pode nos salvar.

Ninguém pode.

Esse discurso de herói salvador é o mais perigoso que existe na política, porque ele joga com uma ânsia muito antiga, que acompanha a nossa espécie desde épocas imemoriais.

Afinal, muito mais fácil do que se levantar e fazer o trabalho do herói é sentar e esperar (normalmente reclamando) que alguém venha e te resgate.

Infelizmente é assim que algumas pessoas decidem interpretar as histórias. Ao invés de olhar para os feitos dos heróis e se sentirem inspiradas a se transformarem nos heróis da própria vida, elas se acovardam e ficam aguardando alguém fazer a parte difícil do serviço.

O que essas pessoas precisam entender, junto daquele senhor que queria mais mortes, é que mudanças de verdade jamais virão por causa dos feitos de uma única pessoa. Você não salva um país ao matar aqueles que pensam diferente de você. O que você faz é, como povo, trabalhar em prol de uma maior reflexão e aculturamento. É dar mais perspectivas para que as pessoas possam pensar em algo mais do que apenas se comerão ou não amanhã. É mostrar que todos temos nossa parcela de responsabilidade.

Então, que tal olharmos para os heróis como realmente são? Que tal enxergarmos neles aquela força que todos temos? Que tal nos inspirarmos ao invés de nos acomodarmos?

Não, ninguém virá nos salvar.

Ainda bem que podemos salvar a nós mesmos.


PS: Esse texto não tem como objetivo atacar os militares. Tenho um imenso respeito por eles. Meu bisavô foi herói de guerra. Meu outro avô lutou na 2ª Guerra Mundial. Mas as mortes e desaparecimentos que ocorreram durante a Ditadura constituem uma mancha negra na nossa história. Simples assim.

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  1. Olá Nano!

    É realmente triste ver como as pessoas cada vez mais perdem a empatia uns pelos outros… Todos os dias ouvimos ou até mesmo presenciamos algum caso de absurdo desses.
    Na empresa onde trabalho estamos tendo uma enorme campanha em apoio à diversidade, igualdade de gêneros e zero preconceito, principalmente com lgbt. Agora você consegue imaginar em uma indústria, onde grande parte da população é de homens “machões” a repercussão que isso tem? E isso me incomoda demais, não consigo nem conceber o porquê alguém faria qualquer atrocidade ou o menor dos gestos ofensivos para uma outra pessoa.
    Estou preparando um material para fazer uma palestra sobre empatia, igualdade e contra todo tipo de preconceito, seja em relação à sexualidade, cor, aparência física…
    E eu sinto exatamente o que você escreveu, não temos que esperar alguém que levante e faça alguma coisa, alguém que seja o herói. Temos que cada um fazer sua parte e tentar melhorar o mundo em que vivemos. Não digo isso para ser considerado um herói, longe disso, sinto muito medo e insegurança com a repercussão que isso trará, mas todos temos que fazer a nossa parte, certo?

    Grande abraço!

    1. Perfeito, Fernando. É exatamente assim que penso. Todos somos responsáveis. Temos que agir menos como selvagens e mais como seres conscientes, capazes de praticar a empatia. A ignorância é o maior de todos os males e deve ser combatida em todos os cantos e de todas as formas. Sucesso na sua palestra! Um abraço.

  2. Fiquei horrorizada com esses comentários que você citou, é muito triste. Ouvi meu pai, que é um homem simples mas instruído, falar que deveria voltar a ditadura. Deixei estar, mas um dia que o assunto surgiu de novo, conversei com ele e o fiz pensar melhor, analisar os fatos sobre as mortes injustas (se é que alguma seria justa, quem sou eu para julgar?) e tanta coisa que teve de errado nessa época. Acho que ele não vai mais falar algo desse tipo, felizmente parece ter entendido o que eu quis passar para ele. Aí fico pensando que realmente, para algumas pessoas é falta de conhecimento e acho que para outras (talvez o caso desse senhor que você mencionou), seja alguma loucura mesmo, que não faz ele pensar nos outros. Muito triste, pois a ignorância pode ser combatida, mas esse sentimento horrível de querer ver todo mundo morto, é mais complicado…

    1. É complicado, Ana. Acho que hoje existe um clima de tanta agressividade e desesperança no nosso país que as pessoas acabam não parando para refletir. A sua atitude foi perfeita. Eu concordo com você de que a falta de conhecimento ou de não observar as coisas por outro ponto de vista são responsáveis por grandes desentendimentos. É preciso levar o diálogo, explicar, ensinar e convidar a uma reflexão. Parabéns pela sua atitude e obrigado pelo comentário.

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