O melhor escritor não é um intelectual, é um artesão

Muita gente pensa no escritor como uma espécie de intelectual. Uma figura com um dom divino, isolada em seu escritório, sozinha, cercada de livros, quem sabe até com um cachimbo na boca. Ao fundo, música clássica toca para manter sua frequência cerebral sempre ordenada.
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Essa imagem do escritor chega até mesmo a ser arquetípica, lembrando em muito aquela ideia que fazemos do mago em sua torre.
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Eu não consigo enxergar o escritor assim.
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Para mim, o escritor sempre foi um artesão. Alguém mais próximo ao esforçado trabalhador das oficinas, esculpindo uma estátua, lixando uma bela peça de madeira, entalhando detalhes em um móvel único.
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Ele trabalha e trabalha e trabalha. Errando muito. Praticando sempre. Até chegar em um ponto em que seu domínio técnico alcança um patamar suficientemente elevado para que outra coisa entre em cena e torne o produto do seu esforço ainda melhor: a sensibilidade artística.
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Sim, pois, agora que a técnica não é mais um obstáculo, o artesão pode experimentar, variar, ir além. Nesse momento, ele começa a dialogar com seu íntimo e a uni-lo ao seu racional. O resultado é algo que não vem apenas do coração e nem unicamente da técnica, mas de uma união de ambas as coisas.
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É nesse ponto que o artesão é capaz de entregar uma mesa que não serve apenas para fins práticos, mas que também nos encanta com sua beleza e que transforma o próprio ato de se alimentar em algo maior e mais significativo.
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É nessa hora que o escultor cria uma estátua que não apenas embeleza o ambiente, como parece se conectar plenamente ao modo de viver daquele que a encomenda, estimulando reflexões imortalizadas na pedra estática.
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É desse jeito que um escritor coloca no papel não apenas palavras, mas histórias, ideias e – por que não dizer? – a própria vida traduzida em tinta.
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Para chegar a esse grau de maestria, é impossível depender somente da inspiração. É inútil achar que basta ter dom. Mas também de nada adianta acreditar que só a técnica fará o serviço.
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A técnica, reforço, é fundamental para se chegar lá. Mas, se você quer causar os efeitos que comentei há pouco, é preciso usar a técnica como um degrau, como um trampolim, como um fórceps necessário para fazer nascer algo que você sempre levou na alma, mas que não conseguia dar à luz.
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E é por isso que vejo o escritor como um artesão.
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Porque, tal qual o artesão, ele precisa da técnica para criar. Porém, para criar algo único, ele também precisa se desafiar a ir mais longe.
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Uma fábrica de móveis pode entregar peças firmes e que atendem as necessidades de seus clientes, mas jamais será capaz de entregar os mais valiosos e belos móveis. Para isso é preciso um artesão.
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Ao mesmo tempo, um redator técnico poderá entregar um livro ou texto certinho, mas não uma experiência transformadora na forma de parágrafos, frases e palavras. Para isso é preciso um escritor.
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O que quero dizer com isso tudo, no fim das contas, é que a técnica trará a resposta para uma infinidade de coisas dentro da escrita, mas não para todas.
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Para desvendar tudo, você também precisa de alma. Está ouvindo a sua?

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