O que significa ser original?

Quando a gente está conversando com outros criativos e fala em originalidade, normalmente as pessoas entendem o termo como ineditismo, inovação. Seria algo completamente novo e surpreendente que jamais foi imaginado na história da literatura, teatro, cinema, etc.

Mas não é bem assim que funciona.

A originalidade pode aparecer em cima de uma ideia pré-existente ou até mesmo meio clichê. A originalidade pode estar em um ponto de vista. Pode estar no estilo. Pode estar em uma nova abordagem.

Na verdade, considero esse tipo de originalidade como algo realmente interessante. Afinal, já temos tantas sementes de ideias bacanas por aí… por que não podemos aproveitá-las e regá-las de outros jeitos, formando frutos com sabores exóticos e inesperados?

Vou ilustrar isso tudo que estou falando com um exemplo:

Recentemente li um livro nacional chamado O Escravo de Capela, do cineasta e escritor Marcos DeBrito. Eu gostei bastante da leitura, embora algumas coisas tenham me incomodado(principalmente em relação ao uso do Ponto de Vista)… mas não quero fazer uma análise da obra aqui. O que eu quero é falar sobre a originalidade.

O Escravo de Capela nos joga dentro de uma fazenda de cana em pleno Brasil Colonial. A fazenda funciona na base do trabalho escravo e a visão cruel e odiosa dos senhores de engenho está presente em cada um dos capítulos sangrentos. Mas o grande lance do livro está nos acontecimentos sobrenaturais que começam a assombrar a Fazenda Capela após o assassinato brutal de um jovem escravo: o Saci Pererê aparece.

Isso mesmo… o Saci Pererê. Mas não é aquele Saci engraçadinho que você está acostumado. Esse Saci mata de formas sanguinolentas e sem piedade. Ele é uma força vingativa da natureza.

O que o autor fez aqui foi rever a lenda do Saci por meio de lentes sombrias e aterrorizantes. As cenas em que a criatura aparece dão medo de verdade e é muito bacana ver como a nossa mitologia pode ser bem explorada nas mãos de um bom criativo.

Veja bem… Marcos DeBrito não inventou o Saci. Ele não criou do zero o grande astro do seu livro. O que ele fez foi utilizar as características mais conhecidas do famoso personagem folclórico – como a ausência de uma perna, o gorro vermelho e até mesmo o cachimbo – de uma forma nova, só sua!

Se isso não é originalidade, então eu não sei mais o que é!!

Muita gente me pergunta de onde tirar uma ideia para história. Ora bolas, as ideias estão sempre ao nosso redor. Ninguém disse que a sua ideia tinha que ser completamente inédita. Você pode (e deve) procurar inspiração em meio a obras que já existem por aí e que te atraem.

George Martin criou Game of Thrones depois de se inspirar em acontecimentos históricos da Guerra das Rosas. J.K. Rowling criou Harry Potter em parte inspirada pelo mago Tim Hunter, do Neil Gaiman. O próprio Gaiman criou Sandman e os Perpétuos após reinterpretar a Teogonia grega.

Não se preocupe tanto caso não esteja conseguindo desenvolver uma ideia 100% inovadora. Você pode pegar coisas emprestadas por aí. Apenas se certifique de fazer como o Marcos DeBrito e arranjar uma forma de tornar tudo isso algo seu. Algo só seu!

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