O storytelling de Donald Trump e por que sua vitória pode ser bem real

Texto publicado originalmente no Update or Die.


Eu não quero que Trump vença.
Embora não goste de Hillary Clinton, tudo que há de racional em mim diz que Trump é muito pior do que a mais terrível versão de Hillary.

Sim, para mim ela é calculista, fria e capaz de qualquer coisa para chegar ao poder. Mas, uma vez com o poder em mãos, acredito que ela se esforçaria para ser uma presidente no mínimo decente.

Já com Trump o buraco é mais embaixo. Com Trump o lance é ver o circo pegar fogo. E é aí que está o maior problema.

Mas vamos por partes, tal qual uma boa história.

ATO I – O AZARÃO

Quando você mergulha no estudo do storytelling, você acaba aprendendo que existem certas tramas que estão por aí há séculos. Padrões que se repetem, mas que ganham uma vida própria nas mãos de escritores e roteiristas de talento.

Essas tramas estão aí há tanto tempo porque funcionam, porque exercem um poder sobre o público e são extremamente eficientes em entregar aquilo a que se propõem.

Uma dessas tramas é a história do azarão.

O azarão é aquele cara que ninguém acredita que vá vencer. Ele tem competidores muito mais preparados, ele se encontra em uma situação de fraqueza e o mundo todo parece querer destruí-lo.

Ele é o Rocky Balboa, a Cinderella e, pra citar um exemplo da nossa política, o próprio Lula (o antigo Lula, que fique bem claro).

Ao se deparar com esse cara, o que o espectador faz? Ele torce pra ele.

Não tem jeito. Quando vemos alguém em uma situação de inferioridade peitando um grande desafio, algo no nosso instinto humano desperta e não conseguimos deixar de torcer pelo figura.

Se ele estiver apanhando brutalmente então… vish… aí ninguém segura.

Começou a entender o problema?

Nessa história da eleição americana, Trump era o azarão. A galera via o cara mais como uma piada de mau gosto, algo tão estúpido que não poderia ser realmente levado a sério, ou poderia?

Ele, com seu jeito exagerado, não demorou para chamar a atenção. De repente ,aquele eleitor não tão politizado, que não entende todas as importantes questões que estão em jogo em uma eleição para a presidência, só conseguia ver um candidato com poucas chances lutando pelo seu lugar ao sol. Essa foi a primeira conquista de Trump.

ATO II – O CRESCIMENTO

Então o republicano foi atraindo mais e mais atenção. É claro que essa atenção veio fruto das barbaridades que saiam de sua boca nervosa, mas, mesmo assim, atenção é atenção e, como eles gostam de falar lá nos States, não existe isso de má publicidade.

Logo, Trump dominava todos os meios de comunicação. Todo dia você ligava a TV, o rádio ou acessava a internet e via algo sendo dito sobre ele. 90% das vezes era uma crítica, mas ele estava lá.

Sua cara estava lá.

Seu cabelo ridículo estava lá.

Ele se tornou onipresente.

E presença tem uma força própria. As pessoas começaram a se acostumar com a imagem, começaram a confundi-la com força.

Evidente que os adversário também perceberam isso e aí, o que fizeram?

Atacaram sem dó. Miraram todas as armas em Trump e trataram de destruí-lo. Mas o ataque se espalhou e, junto aos oponentes, vieram artistas, canais de comunicação, influenciadores antenados e politicamente corretos.

Só que os ataques trouxeram mais visibilidade a Donald Trump e não foram capazes de tirar o cara da jogada. O que gerou consequências.

Além de tudo isso reforçar a ideia de azarão, também fez com que aquela parcela da população que considerava o voto em Trump ficasse ainda mais inclinada a votar nele.

Veja bem, antes ele era um maluco que queria ser presidente contra todas as expectativas. Agora ele era esse mesmo maluco, só que levando pancadas por todos os lados e resistindo.

Ele não estava se rendendo. Muito pelo contrário, ele atacava seus detratores com uma ira ainda maior.

Ele estava se tornando Rocky Balboa.

Agora o eleitor de Trump o vê como um homem que tem o que é necessário para ser um presidente. Ele o vê como o machão que não vai se curvar ao que todos aqueles intelectuais chorões e certinhos dizem.

E o fato de Trump não ser nem um pouco burro torna tudo pior.

Ele consegue ler muito bem o seu eleitorado. Ele diz o que eles querem ouvir. Até mesmo a sua imagem caricata tem uma razão de ser. Não pense nem por um momento que as insanidades que Donald Trump fala não são muito bem planejadas.

Ele não recua. Ele não pede desculpas. Ele aparece de novo e de novo e de novo como um cara que está ali para chutar o pau da barraca.

E, rapaz, como tem gente que está querendo chutar o pau da barraca.

O mundo está uma doideira, uma verdadeira zona e toda essa galera perdida e de saco cheio, mas que não tem paciência para pensar em uma boa alternativa, vai acabar votando em Donald Trump.

Não porque ele tem boas propostas.

Não porque são necessariamente racistas e preconceituosos.

Mas porque, como bem explicou o Alfred em Batman: O Cavaleiro das Trevas, algumas pessoas querem apenas ver o mundo pegar fogo.

E alguém duvida que é o que vai acontecer com um radical como chefe do país mais poderoso do mundo?

ATO III – O VOTO

Por fim, temos o grande momento, o dia em que o povo dos Estados Unidos deixará seus lares quentinhos para enfrentar enormes filas e gastar algumas horinhas preenchendo formulários.

E é claro que todo mundo vai fazer isso por livre e espontânea vontade, não é?

Hmmmm… não.

Ao contrário do que ocorre por aqui, lá nos Estados Unidos o voto não é obrigatório. Na prática isso quer dizer que não basta que um candidato convença o eleitor de que ele é a melhor opção para o governo, também é necessário convencer o eleitor a ir votar. E aqui talvez esteja a maior vantagem de Trump.

Pare e pense por um instante: quem parece ser o candidato mais capaz de motivar seu público? Qual eleitorado está mais empolgado com essas eleições?  E qual parece mais propenso a realizar mobilizações, levar familiares para votar e caçar mais votos para seu candidato?

Exato.

Hillary não empolga. Ela é a escolha óbvia e lógica, mas muita gente aí (muita mesmo) não usa a lógica na hora de decidir o futuro. Além disso, há uma rusga entre o eleitorado de Hillary e o do candidato derrotado do partido democrata Bernie Sanders.

Na hora do pega pra capar, é claro que os outrora partidários de Sanders vão votar na Hillary, mas o esforço deles vai parar por aí. Não espere ver muitos deles engajados em prol da democrata.

Já os fãs de Trump (e digo “fãs” porque os eleitores dele já deixaram o aspecto político para trás) estão com fogo e enxofre nas entranhas, prontos para condenar todos nós ao inferno se preciso for.

E essa é a narrativa que está sendo escrita diante de nossos olhos e que, infelizmente, começa a se mostrar como uma terrível probabilidade. Essa é a história da qual Donald Trump se apropriou e que ele usa para se fortalecer a cada semana dessa corrida presidencial.

Ela já está escrita? Ainda não.

É a única história? Graças aos deuses, também não.

Mas já passou da hora de Hillary e companhia darem um passo atrás, enxergarem todo esse storytelling e começarem a escrever sua própria versão. Talvez uma na qual uma heroína incompreendida precise derrotar um enorme dragão que usa a mentira, o ódio e a intolerância para crescer e dominar o mundo.

Aguardemos o próximo capítulo.

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