Os Defensores: porque heróis também precisam de alguém

Texto publicado no Update Or Die.


Quando Demolidor, o primeiro seriado fruto da parceria Netflix-Marvel estreou, nós fomos apresentados a um outro mundo dentro do Universo dos Super-Heróis. Um mundo mais urbano, sujo, cruel e – por que não dizer? – real. Um mundo que trouxe os heróis da Casa das Ideias pra muito mais perto da gente, andando pelas mesmas ruas, lidando com problemas mais “humildes”, mas nem por isso menos graves.

Claro que foi legal ver o Hulk e o Homem de Ferro caindo na porrada contra alienígenas. Mas testemunhar um vigilante cego, muito menos poderoso que os Vingadores, enfrentando um monte de bandidos violentos em um corredor apertado, nos impactou de um jeito bem mais intenso.

https://youtu.be/B66feInucFY

Foi essa proximidade com a mortalidade, com as ruas, com um heroísmo mais pé no chão (em contraste com o heroísmo que voa resplandecente em belas capas esvoaçantes), que garantiu o sucesso de Demolidor e abriu as portas para os outros títulos que viriam depois.

Nos últimos anos nós acompanhas a jornada de Matt Murdock. Nós conhecemos o horror de um relacionamento abusivo por meio da ótima trama de Jessica Jones. Nós vimos a importância da representatividade em Luke Cage, um herói negro do Harlem, em contato com toda a música, dor e cultura local. Nós também nos decepcionamos um pouquinho com o Punho de Ferro e toda a sua mitologia mal explorada que ficou mais parecida com uma temporada de Power Rangers do que qualquer outra coisa.

Seja como for, nós conhecemos esses personagens, compreendemos o mundo no qual eles estavam inseridos e passamos a torcer por eles. Aos poucos, graças a alguns detalhes de tramas e personagens em comum, vimos as séries sendo amarradas, sendo preparadas para um grande momento de reunião no qual teríamos os heróis trabalhando lado a lado.

Essa reunião finalmente chegou com a estreia de Os Defensores!

Mas E Aí, Nano, A Série É Legal Mesmo?

Boa notícia: a série é boa!

Não é ótima, mas é boa. Diverte, empolga nos momentos certos e cria uma dinâmica bem bacana entre seus personagens principais. Talvez esteja aí sua maior força, muito mais do que nas cenas de luta, explosões ou revelações sinistras de um grupo de vilões milenares.

Mas já vamos falar disso. Antes, uma rápida explicação sobre a trama:

Cada um dos heróis começa de um ponto: Danny Rand caça membros da organização criminosa conhecida como Tentáculo ao redor do mundo, Luke Cage acabou de sair da prisão e quer ajudar sua comunidade, Matt Murdock tenta ser herói como um advogado ao invés de como o Demolidor e Jessica Jones… bom, Jessica só quer ficar bebendo na sua, mas uma cliente indesejada acaba jogando-a no meio da confusão.

A partir daí os diferentes caminhos vão gradativamente convergindo até que se unem por completo na metade da temporada. Ali os protagonistas percebem que têm um inimigo em comum: o tal do Tentáculo – já explorado nas séries do Demolidor e do Punho de Ferro.

E é muito legal notar como a fotografia do filme explora as cores para evidenciar as cenas de cada um dos quatro heróis. Perceba a predominância do vermelho sempre que Murdock aparece na tela, ou o amarelo no caso de Luke Cage, ou o verde com Danny Rand e, finalmente, o roxo/azul para Jessica Jones.

Essa construção segue, sempre com predominância de uma cor, até o momento de união, em um restaurante chinês. Enquanto os personagens discutem sobre seu futuro como grupo e se devem ou não trabalhar juntos, vemos que as luzes neon de fundo já dão a resposta: temos o roxo, o amarelo, o verde e o vermelho em conjunto, harmônicos.

E como eu disse há alguns parágrafos atrás, Os Defensores vale a pena, antes de mais nada, pela forma como aproxima esses super-heróis menos celebrados, mas mais humanos. Ali na tela vemos pessoas que, de uma forma ou de outra, estão quebradas, incompletas. Elas combatem o crime justamente para buscar algo que dê sentido a suas existências, que preencha o vazio interior.

E é a identificação uns com os outros, apesar das diferenças, que traz essa sensação de completude e pertencimento. Por causa disso, é especialmente poético quando vemos uma cena no alto de um prédio na qual o Punho de Ferro zela pelo território da mesma forma que nos acostumamos a ver o Demolidor fazer. Um serviu de exemplo e inspiração ao outro.

São muitos os bons momentos de troca entre os heróis. Aquela química entre Jessica Jones e Luke Cage vem à superfície nas horas certas e a cuidadosa aproximação entre a detetive e Matt Murdock funciona bem. Contudo, nada supera as conversas (e brigas) de Cage e Danny Rand. Dá pra ver claramente a fundação para a amizade que os dois personagens já possuem nos Quadrinhos.

E por falar em Danny Rand… é impressionante como ele funciona muito melhor em grupo do que em sua série solo. Mesmo ainda tendo o intérprete mais frágil de todo o grupo (Finn Jones), o personagem consegue cativar com seu jeito meio ingênuo e bobo – pô, o cara ficou a vida toda em uma cidade mística, tem que dar um desconto.

O fato de o Punho de Ferro ser o único ali que inicialmente se empolga com a ideia de formar um grupo também ajuda a gerar empatia e conexão com o público. Afinal de contas, todos nós queremos ver aquela galera trabalhando junto.

A antagonista Alexandra, interpretada por Sigourney Weaver, mantém a tradição de bons vilões das séries da Marvel, mas, pra mim, o destaque continua sendo Madame Gao. A velhinha se firma como o Yoda do mal daquele universo e torço para que apareça novamente em futuras produções.

Claro que nem tudo são flores. As cenas de combate, embora melhores do que as da série do Punho de Ferro, continuam inferiores àquelas de Demolidor, e a montagem deixa a ação um pouco confusa. Além disso, um olhar atento vai revelar diversos furos de roteiro e explicações forçadas – de implosões de prédios a CEOs lutadores.

O que mais me incomodou, no entanto, foi a grandiloquência do grupo de vilões. Sim, a história se passa em bairros específicos de Nova York, mas o potencial de destruição é global… o que fez com que eu me perguntasse: onde diabos estão os Vingadores nisso tudo?

Sim, pois não podemos esquecer que Os Defensores se passa no mesmo mundo onde estão Tony Stark, Capitão América, Doutor Estranho e, agora, também o nova iorquino Homem-Aranha. E acho que esses caras não iriam simplesmente ignorar uma ameaça como o Tentáculo.

Talvez isso seja apenas eu sendo chato, mas acredito que uma história mais humilde – assim como nossos heróis – teria se encaixado melhor.

Os Defensores não é a melhor série da Marvel, mas também está longe de ser a pior. Talvez você não encontre todo aquele drama ou simbolismos poderosos ou discussões sociais. Mas, se você busca um pouco de diversão e o bom e velho heroísmo, então pode fazer como o próprio Demolidor e ir adiante sem medo.

E que venha o Justiceiro.

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