Paulo Coelho: bom, ruim ou um pouco dos dois?

Talvez Paulo Coelho seja o escritor brasileiro mais polêmico de todos os tempos. Tem gente que odeia, tem gente que ama. Difícil achar quem fique em um meio termo.

Seja como for, Paulo Coelho é o autor nacional de maior sucesso comercial em toda a nossa história. A cada livro novo são milhões e milhões de exemplares vendidos, traduções para dezenas de idiomas, entrevistas por todo o globo.

O cara é um popstar.

Você até acha gente do naipe de Bill Clinton e Tim Ferris louvando seus textos.

Então vem a pergunta: Paulo Coelho é mesmo bom?

Veja bem, no meio literário – no meio criativo em geral – há uma grande quantidade de ego rolando solto. E isso é normal. Afinal, quando a gente cria, a gente está soltando uma parte nossa. É compreensível que as pessoas fiquem meio sensíveis quanto às suas produções… o problema é quando o ego fica forte demais e vira arrogância.

Olha, eu já perdi a conta de quantas vezes vi grupinhos malhando o Paulo Coelho. Sim. Xingando o cara sem dó nem piedade. Ok, todos têm direito à sua opinião e tal, mas o que me assusta mesmo é a quantidade de escritores/criativos detonando o cara sem nunca ter lido nenhum livro dele.

Isso mesmo… NENHUM!

E muitas vezes eu mesmo me juntava ao coro e soltava comentários maldosos. Como eu fui babaca, não concorda? Eu também acho.

E por um tempo eu até engolia aquele velho argumento:

Não preciso ler os livros porque não curto aquele tipo de literatura. Eu sei que é ruim.

Sério mesmo? Somos capazes de dizer que Paulo Coelho escreve mal pelo gênero de literatura no qual ele escreve?

Bom, nenhum problema em dizer que não se curte certos gêneros. Você não é obrigado a ler o que não gosta, afinal de contas. Mas, para saber se o cara manda bem como escritor, não tem jeito… tem que ler, tem que ver suas palavras, seu ritmo, sua técnica.

Por causa disso eu resolvi que ia engolir o meu ego, baixar a bola e ler alguns livros dele. Sim, eu fui atrás de 5 de seus livros:

  • O Alquimista
  • O Monte Cinco
  • O Demônio e a Senhorita Prym
  • Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei (aliás, que título incrível, heim)
  • Onze Minutos

Li três desses em janeiro – os três primeiros da lista – e pretendo ler os outros dois em breve. Além disso comecei a acompanhá-lo nas redes sociais.

E olha só o que eu aprendi…

 

Escrever de forma simples

Paulo Coelho não escreve de forma rebuscada. Muito pelo contrário. Seus livros tem um jeitinho simples, de fácil compreensão. Em muitos momentos são quase infantis – e por favor, não me entenda mal, eu não estou fazendo uma crítica ao dizer isso… é a forma com a qual o autor escolheu se expressar e ela é altamente eficaz.

Dá pra ver que ele faz questão de tornar sua mensagem acessível a todos os seus leitores. E eu sou capaz de valorizar esse esforço, porque, como eu já disse inúmeras vezes, escrever simples é difícil pra caramba.

Ao ler Paulo Coelho a sensação que tive era a de que eu não estava lendo um romance. Foi mais como se eu lesse uma fábula. Histórias simples que tinham uma moral poderosa por trás, uma mensagem que podem te acompanhar por muito tempo.

Essa comparação com fábulas me fez aceitar de forma mais fácil o segundo item.

 

A técnica não é complexa

Eu não quero dizer que o Paulo Coelho não tem técnica ou que ele não tenha desenvolvido uma sistemática própria para escrever seus livros, mas ele não mergulha fundo em algumas das técnicas que tanto gostamos, como desenvolvimento de personagem ou até mesmo estrutura.

Não espere por grandes viradas ou por personagens que ficarão para sempre marcados na sua mente. Comigo isso não aconteceu. E talvez essa seja a minha maior queixa com relação às obras do autor… elas poderiam me envolver mais, se existisse um cuidado especial na construção.

Mas não me parece que o autor tenha esse interesse. Em muitos momentos somos apresentados a personagens que nem mesmo possuem nomes, eles simplesmente aparecem como o Alquimista, a Sábia, o Rei, cumprem algum papel dramático e depois desaparecem. Eles são ideias, arquétipos, não personagens totalmente desenvolvidos.

Isso pode soar estranho, já que uma das coisas que escritores mais desejam fazer é a criação de uma figura complexa e marcante. E os que não são tão voltados a personagens acabam sendo grandes fãs da trama… é por isso que costumamos dizer que uma boa história começa com um personagem ou com uma ideia de história.

Só que Paulo Coelho acabou encontrando outra fonte, o que nos leva ao terceiro item.

 

O poder do tema

Os livros do Paulo Coelho podem não ter complexidade em estrutura, personagens ou em estilo, mas, quando se trata de tema, é completamente diferente.

O que eu li dele até aqui – e tenho certeza que seus outros livros seguem nessa linha – é totalmente construído em cima de tema. Ele tem algo a falar, uma mensagem pra passar, e a história é apenas o seu canal de escolha para isso.

Em entrevistas ele fala muito em escrever com o coração, escrever a sua verdade. Bem, eu acredito que o coração dele está nesses temas, nessas mensagens de sabedoria. Claro que ele gosta de escrever, gosta de contar histórias… mas algo me diz que a alma dele está nessas mensagens. Ele nasceu para transmiti-las. Ou pelo menos é nisso que ele acredita (então meio que faz ser verdade, certo?).

Eu duvido que você termine a leitura de um livro dele sem ser tocado por uma “moral da história”. Pode até não gostar do livro, mas aquela sabedoria que você captou em um capítulo, em um diálogo, ou mesmo em uma linha, vai seguir com você.

Quando o tema é forte, ele tem um poder atrativo, como um ímã. Ele atravessa as suas barreiras e te toca direto na alma, o que é uma baita experiência emocional.

Eu não me apolguei muito com O Monte Cinco e nem com O Demônio e a Senhorita Prym (embora tenha captado e gostado das mensagens), mas em O Alquimista ele me acertou em cheio. Foi como se ele tivesse escrito aquele livro para mim, para o momento de vida que eu experimentava naquele instante. Li a obra com calma, ao longo de dois dias e, quando cheguei no clímax, derramei uma lágrima.

Pois é… eu não esperava por isso.

Até então eu só tinha experimentado algo assim ao ler O Senhor das Moscas e Enterrem Meu Coração na Curva do Rio, muito pela natureza dramática e cruel dessas obras. Chorar ao ler um livro de Paulo Coelho não estava nos meus planos.

E ele conseguiu isso pela força do seu tema.

 

Mas e aí, Nano? Paulo Coelho é bom ou ruim?

Depende do que você procura.

Eu realmente gostei de O Alquimista, mesmo com algumas falhas. Os outros livros do autor também trazem momentos poderosos que tranquilamente valem por eventuais escorregões técnicos.

Depois de ler esses livros, tenho que admitir que entendo o valor desse cara e tiro meu chapéu pra ele. Confesso que ele não é muito o meu estilo de leitura, eu também não escreveria do jeito dele, mas aprendi boas coisas analisando sua obra.

Ele conseguiu encontrar um aspecto da história e ficar absurdamente bom nesse aspecto. Tem autores que conseguem o sucesso por entenderem de trama (como James Patterson e Dan Brown), tem autores que vencem por conseguirem criar personagens incríveis (J.K. Rowling e George Martin). Paulo Coelho chegou lá dominando o uso do tema.

Parabéns por essa maestria, senhor Coelho. E me desculpe os comentários babacas de um Nano mais jovem e menos humilde!

 

Tá, mas vamos para a prática: como eu exploro melhor o meu tema?

Pergunta complicada!

O tema é, de certa forma, a alma do seu livro. Você pode escrever uma obra tecnicamente perfeita, mas, sem um tema, ela não será marcante, não terá essência.

Muitos escritores só descobrem seus temas após começarem a escrita. Eles trazem histórias e personagens no seu íntimo e, conforme escrevem, fica claro sobre o que se trata aquela obra.

Outros são incapazes de escrever uma palavra sequer sem um tema definido. São escritores que trazem algo engasgado no peito e precisam colocar pra fora, uma bandeira a ser erguida, um grito de revolta ou uma dor que precisa de catarse. Se é o seu caso, vai fundo. Contudo, não esqueça de uma coisa importante:

Um tema não é a mesma coisa que uma lição de moral.

Se você usar o seu livro para pregar ao seu leitor, vai apenas irritá-lo, afastá-lo, desconectá-lo daquilo que você quer tanto transmitir.

Use a história para passar o seu ponto de vista sobre a vida, da maneira mais honesta possível. Crie situações, diálogos, personagens, de acordo com o seu tema.

Mostre a sua verdade, não acerte seus leitores na cabeça com ela. Há uma grande diferença, ok?

Quando em dúvida sobre o seu tema, pergunte a si mesmo: sobre o que é a minha história?

Depois retire a trama e o personagem. O que sobra?

Coração Valente pode parecer uma história sobre a luta de um grande guerreiro – William Wallace –para libertar a Escócia do domínio inglês, não é mesmo?

Mas na verdade é uma história que diz que a única forma de viver livre é levantando e combatendo a opressão… até o fim.

O tema está lá, escondidinho no meio de angústias, conflitos e desejos. Está dentro de você também. Olhe com calma e você vai encontrá-lo!

Então… sobre o que é a sua história?

 

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  1. Nunca li Paulo Coelho, mas, pelo que você diz aí, provavelmente não vou gostar. Eu não sou lá muito fã de histórias em que o tema é mais importante ou mais bem trabalhado do que o enredo ou os personagens.
    Claro, o tema é importante (aliás, não sei se é possível escrever uma história sem colocar um pouco da sua visão de mundo nela). Mas eu prefiro quando ele está lá nas entrelinhas, subentendido. Porque quando eu pego um livro para ler nos meus momentos de lazer, eu quero ser enredada por bons personagens e surpreendida pelas viradas de enredo; ou seja, quero me divertir com uma boa história, sem me comprometer (ao menos no momento da leitura) em fazer alguma reflexão.
    De qualquer jeito, se não eram essas as intenções de Paulo Coelho (ter bons personagens e boa trama), não podemos julgar seus livros por isso. Eu acredito que um bom resenhista é aquele que reconhece que um autor fez bem aquilo a que se propôs, mesmo que esse “aquilo” seja algo que não é importante para você em uma leitura, e mesmo que aqueles elementos que são essenciais para que você goste de uma história não sejam tão fortes (se fazê-los bem não foi a intenção do autor).
    Boa reflexão a sua.
    Abraço!

    1. Oi, Laís!

      Muito obrigado pelo seu comentário. Fico feliz que tenha gostado do texto e gostei especialmente de um ponto que você colocou… você disse: “Eu acredito que um bom resenhista é aquele que reconhece que um autor fez bem aquilo a que se propôs”. Eu penso exatamente como você! =)

      Um grande abraço!

  2. Oi, Nano!
    Eu era muito fã de Paulo Coelho na adolescência e li tudo o que ele escreveu durante muito tempo, mas depois o interesse mudou. Enfim, concordo contigo, tem livros dele que nos arrebatam (comigo foi Brida e As Valquírias). Eu sempre achei que minhas histórias eram meio bobinhas, simples demais, mas agora, ao ler sobre o Paulo Coelho, acho que talvez elas mereçam uma segunda chance. Vou revisar o que tenho aqui… Quem sabe? A gente fica querendo rebuscar e florear e às vezes isso distrai do objetivo – contar uma história!
    Valeu mesmo pelo texto! 😀

    1. Oi, Raquel!

      Obrigado pelo comentário =)

      Olha só… a gente tem esse costume de ser muito crítico com as nossas histórias. Mas a verdade é que estamos em um ciclo constante de melhorias e, se queremos avançar como escritores, temos que soltar nossas criações por aí. Dá uma chance para as suas histórias, sim. Muitas vezes o mais bonito de uma trama é justamente a sua simplicidade.

      Um abraço e boa escrita!

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