Planeta dos Macacos: a vitória da humanidade

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Texto publicado no Update Or Die.


Quando os créditos finais de “Planeta dos Macacos: A Guerra” surgiram na tela, eu me peguei balançando a cabeça afirmativamente, como se concordasse com o que tinha acabado de assistir. Como se tudo o que eu vi ali naquele cinema fizesse total sentido.

Eu estava feliz com o resultado final, triste por algumas perdas, e absolutamente satisfeito com o fechamento dessa nova trilogia que apresentou a saga símia a uma nova geração.

No terceiro filme da franquia, vemos o que acontece quando as apostas são elevadas e os macacos de César precisam finalmente enfrentar os humanos em uma batalha final que definirá os herdeiros da Terra.

Se você já assistiu ou pelo menos ouviu falar do filme clássico original, então você já sabe muito bem o resultado desse embate. Sendo assim, talvez você estranhe o título desse texto.

Como assim “vitória da humanidade”, Nano? Os humanos se ferram, pô!

Calma que tudo já vai fazer sentido.

Desde os primeiros momentos de projeção já nos fica clara a posição moral superior de César, que evita entrar em combate franco com os humanos, desejando apenas ser deixado em paz para poder viver com seu povo. Os macacos agora vivem em uma sociedade organizada, que lembra as nossas origens tribais, e buscam por uma terra para chamar de lar.

Por outro lado, os homens comandados pelo Coronel (interpretado pelo sempre foda Woody Harrelson) não vão descansar enquanto não aniquilarem todos os símios.

Essa estrutura nos joga na cara quem é o mocinho e quem é o vilão da história. Não resta dúvida sobre isso. Planeta dos Macacos é, sim, uma história maniqueísta. Contudo, mesmo sendo maniqueísta, ela não é rasa. O Coronel –claramente inspirado no Coronel Kurtz de Apocalypse Now – apresenta seus motivos para fazer o que faz. Ele mostra uma mentalidade prática, fria e obcecada. Afinal, entende que os macacos são mais fortes que os homens e que, caso ele não haja, sua espécie será extinta.

Interessante notar também como o personagem faz um paralelo entre si mesmo e o Deus cristão, devido aos sacrifícios que teve que fazer. Esse paralelo aumenta a força de sua figura, principalmente ao vermos a adoração que desperta em seus comandados.

Mas Kurtz é cruel, implacável e impiedoso. Suas ações nos fazem relembrar algumas das maiores vergonhas da nossa história, como a escravidão, a tortura, os campos de concentração… você entendeu o espírito da coisa. E é triste compreendermos o porquê de termos apelado a esses recursos ao longo da nossa existência nessa terra. Porque eles funcionam. Simples assim. Eles despertam o terror, quebram a força de vontade e nos destroem por dentro.

Kurtz justifica alguns de seus atos mais radicais como um meio para evitar que os homens percam seu intelecto, sua consciência, aquilo que nos faz humanos. Ele apenas falhou em compreender que nossa humanidade é muito mais do que isso.

Cada vez que subjugamos um semelhante e o obrigamos a um trabalho forçado, cada vez que torturamos outra pessoa, cada vez que fechamos a porta na cara da compaixão, nós abrimos mão de um pouco daquilo que nos faz humanos.

E é aí que entram os macacos de César e a grande sacada de toda a trilogia. Embora fisicamente diferente de nós, os símios possuem atitudes e visões de mundo com as quais podemos nos identificar. Eles são, de certa forma, uma versão do lado bom dos homens. Eles estão em contato com a compaixão, com a empatia, com o bem do grupo.

É tocante observarmos como eles são afetados pelo amor, pela pena, pela saudade daqueles que se foram. E aqui cabe um elogio aos atores e também ao pessoal dos efeitos especiais. Os macacos estão perfeitos e sentimos plenamente seus medos, dores e angústias.

Também não deixa de ser curioso perceber como os macacos ficam chocados e demonstram dificuldade de entender algumas ações maldosas dos homens, fato que me fez lembrar o velho livro Enterrem Meu Coração na Curva do Rio. Esta obra, que conta a história dos índios da América do Norte, relata como eles aprenderam algumas crueldades (como o escalpelamento, por exemplo) ao observar o “homem branco”, uma vez que tais atos não faziam parte de sua cultura.

Vemos então, que dentro do contexto do filme, são os macacos quem melhor representam a humanidade. Os homens, corrompidos, se transformaram em outra coisa há muito tempo.

E é por isso que vi, na sobrevivência dos macacos, uma vitória da humanidade. Humanidade como essência humana, como características que nos definem como gente.

Chega a ser poético que a própria natureza exerça um papel importante em certo momento da história, como se ela tivesse optado pela espécie mais merecedora de ir adiante.

Além disso, achei fantástica a forma como foram inseridos e reinterpretados certos elementos do filme clássico. Se você não conhece ou não se lembra bem do Planeta dos Macacos de 1968, eu sugiro fortemente que tire um tempo para assistir à obra. São muitas as referências e eu apenas não falei delas aqui para não estragar a surpresa de nenhum fã.

Dito isso, acho válido alertar que esse último filme da nova trilogia tem um ritmo mais lento do que os dois anteriores. Ele respira. Ele nos dá tempo para nos conectarmos com os personagens mostrados em tela. E isso deixa a ação menos frenética. Eu não estranharia se me deparasse com comentários reclamando desse aspecto do filme, ou mesmo argumentando que o final é anticlimático (o que, na minha opinião, não é o caso).

Por fim, mas não menos importante, tenho que elogiar o trabalho de Andy Serkis como César. Já passou da hora da academia reconhecer o talento desse cara e, se há justiça no mundo, ele precisa levar ao menos uma indicação ao Oscar.

Planeta dos Macacos: A Guerra fecha com chave de ouro uma trilogia que tinha uma enorme carga de responsabilidade nas costas e consegue nos deixar uma importante lição: a de que a nossa humanidade não está em nossa aparência, mas nas atitudes que tomamos. E se somos capazes de nos identificarmos com macacos, então por que falhamos em demonstrar empatia, amor e compaixão por membros da nossa própria espécie?

Por que somos diferentes?

É urgente que a gente volte a entender que, no fim, somos todos humanos… ainda.

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