Por que o storytelling é a nossa maior força

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Vamos fazer um exercício imaginativo?

Faça de conta que você é um dos primeiros da nossa espécie a desenvolver a consciência.

Você viveu há dezenas de milhares de anos no passado, quando ocorreu o que chamamos de revolução cognitiva. Você se diferenciou dos outros animais do planeta e se tornou capaz de pensar, analisar, refletir e imaginar.

De repente você não estava mais seguindo seus instintos, mas percebendo o mundo ao seu redor e tirando conclusões sobre ele.

Imaginou?

Deve ter sido muito confuso para você, uma vez que você começou a questionar as coisas.

Por que isso é de tal jeito? Por que tal coisa acontece quando faço assim? Por que o ciclano morre quando come aquela fruta? E assim por diante.

Com uma consciência, você começou a perceber relações de causa e efeito ao seu redor. Você notou que existia uma lógica em absolutamente tudo o que vivenciava. Uma lógica fundamentada em 3 partes claras:

  • Tese
  • Antítese
  • Síntese

Fica mais fácil de entender se eu usar um exemplo.

Vamos imaginar que você está andando pela estepe, tranquilão, indo em direção à sua caverna favorita para passar um tempo com os amigos quando, de repente, você vê um tronco em chamas.

Nossa, você pensa. Que coisa mais linda.

Você nunca tinha visto o fogo tão de perto e está encantado com aquilo. Você se aproxima e vê que, além de bonito, ele também é quentinho.

Opa. Adorei essa coisa estranha aí. Vou guardar no meu bolso e levar comigo, assim posso mostrar para os meus amigos.

Você formula uma tese: o fogo é bonito e quentinho (e vou levar comigo para mostrar pros outros).

Então você estica essa sua mão curiosa e, não apenas não consegue pegar de fato o fogo, como também se queima. Você encolhe sua mão imediatamente, soltando um sonoro “Aaaaiiiii”.

Você se deparou com a antítese: o fogo se mostrou diferente do que você imaginava. Ele não é concreto como uma pedra e ele também queima ao contato com a sua carne. Não dá pra pegar.

Agora você aprendeu com a experiência. Você uniu a sua ideia inicial sobre o fogo com aquilo que você experimentou e tirou uma conclusão.

Da união entre tese + antítese, você chegou na síntese: o fogo é belo e esquenta, mas ele também pode ser usado para queimar.

Outro exemplo…

Você encontra uma frutinha vermelha muito cheirosa. Se é cheirosa, deve ser gostosa, você pensa. Sem hesitação, devora toda a fruta. Só que no dia seguinte ela te dá uma bela dor de barriga.

Você tira a conclusão de que nem toda fruta cheirosa serve como alimento. Além disso, decide nunca mais comer aquela frutinha novamente.

Tese + Antítese -> Síntese.

Essa jornada toda aí vai fazendo você evoluir ao longo do tempo. A cada nova experiência, você se torna uma nova pessoa.

Legal, Nano. Mas o que isso tem a ver com storytelling?

Ahhhhh… mas tem tudo a ver.

Essa estrutura em 3 etapas se desenvolveu e foi se adaptando até chegar no que os contadores de histórias chamam de Estrutura em 3 Atos.

Já ouviu falar dela?

Ouviu sim!

Começo (tese), meio (antítese) e fim (síntese).

A mente humana não consegue captar a realidade como uma série de dados caóticos. Ela precisa conferir certo sentido à nossa existência. Pra isso, ela adotou a estrutura em 3 etapas/atos. E é por isso que as histórias nos parecem tão naturais e agradáveis.

As histórias são montadas por meio dessa estrutura. Seu desenvolvimento se dá com apresentação, conflito e conclusão, do mesmo jeito que as nossas experiências de vida.

Faça o teste e preste atenção no seu filme ou livro favorito. As chances deles observarem os 3 Atos é de mais de 95%.

Claro que fizemos isso por instinto no começo, nos sentando ao redor de fogueiras e conversando com os demais membros da tribo. Mas, com o tempo, ao notarmos que essa forma de comunicar era tão poderosa, passamos a aprimorar o seu uso. Daí surgiram músicas que narravam grandes feitos, lendas, poemas, livros e filmes.

Ao utilizarmos histórias para educar, passar uma mensagem, convencer ou entreter, não apenas tornamos a experiência mais agradável, como também abraçamos algo que já está no nosso DNA.

Sim, o ato de contar histórias está em nosso DNA. É graças a essa atividade que pudemos nos desenvolver e chegar até aqui.

De que outra forma poderíamos ter levado conhecimento adiante em épocas nas quais não existia meios de registro?

Como criaríamos vínculos mais fortes entre grupos maiores se não partilhássemos das mesmas histórias (como lendas e deuses)?

Como poderíamos construir sociedades complexas se não fôssemos capazes de explorar o potencial das histórias para criar ordem (lembre-se que o Estado, o Dinheiro e a Religião só funcionam porque acreditamos conjuntamente nessas histórias)?

E como poderíamos ser felizes se nossa vida fosse resumida a caçar, comer, reproduzir e dormir? Nós precisávamos de algo que nos desse entretenimento também e, até hoje, nada nos diverte tanto quanto uma boa história.

Está vendo então como o storytelling é muito mais do que uma ferramenta para escritores ou palestrantes?

O storytelling é uma característica fundamental do ser humano. Todos somos um pouco contadores de histórias e, com paciência e um pouco de esforço, podemos aproveitar isso a nosso favor.

Ao entender como as histórias funcionam, podemos escrever livros, desenvolver filmes, criar uma marca ou até mesmo compreender a nossa própria existência, em um processo valioso de autoconhecimento.

Eu estudo storytelling há 10 anos e, nesse tempo, tive muitos altos e baixos. Tive momentos de fundo de poço e de dúvidas. Momentos em que eu não tinha a menor ideia do que fazer ou de como prosseguir. Nesse momentos, não foi meu conhecimento em publicidade, minha formação acadêmica ou minhas habilidades técnicas que me ajudaram.

Não.

A única coisa que eu tinha que realmente me possibilitou perceber a natureza das sombras e enxergar um caminho em direção à luz foi o storytelling. Eu vi a mim mesmo como um personagem em uma grande trama. E vi os passos que precisava dar.

Então eu soube como nossos antepassados conseguiram atravessar a longa noite das eras, mesmo sendo frágeis em comparação a tantas feras de dentes longos e garras afiadas. Eu soube como eles saíram das trevas das cavernas para encher um mundo de arte, ciência e conhecimento. Com histórias.

Sim, eu sei que ainda há um longo caminho pela frente e que não somos perfeitos… mas isso faz parte. E isso também nos abre a possibilidade para muitas novas histórias.

Cara, como eu amo storytelling! 🙂

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