Raphael Montes: Um Ponto de Vista Genial

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Se você ainda não leu Raphael Montes, você precisa parar tudo o que está fazendo e ir atrás de um de seus livros.

É sério.

Raphael é um fenômeno. E um fenômeno que vem melhorando com o tempo.

Seria possível criar um curso de escrita todo apenas em cima de sua técnica, voz, estilo – e não seria um curso curtinho. Além de um leitor voraz, estudioso de técnica e criativo de talento, o Raphael passa aquele feeling diferenciado em seus textos.

Como ele faz isso?

Como eu disse, muitos são os fatores, mas, ao analisar os seus dois livros mais recentes (Dias Perfeitos e Jantar Secreto), eu identifiquei um ponto que ele manipula com maestria e que pode nos ajudar muito em nosso aprendizado: o Ponto de Vista.

Ponto de Vista é uma das armas mais importantes dentro do arsenal do escritor.

Veja, livros, ao contrário de filmes, possibilitam uma subjetividade muito maior, um mergulho muito mais profundo dentro da mente e dos sentimentos dos personagens. E isso cria uma conexão diferenciada entre leitor e personagem. Uma conexão que é difícil alcançar em outros meios (já ouviu alguém falar que o livro é sempre melhor que o filme? Então… provavelmente é por conta dessa conexão).

Ao explorar o Ponto de Vista da maneira correta, o escritor consegue não apenas nos mostrar uma história, mas mostrar essa história pelos olhos de determinado personagem. Ele consegue nos fazer sentir como se fôssemos aquele personagem. Consegue mostrar como seria viver a vida daquela figura. E isso pode fazer toda a diferença.

Quer ver?

Imagine uma história de traição, na qual uma mulher casada se envolve com um homem desconhecido e perigoso.

Como é essa história? Se a acompanhamos a uma certa distância, ela terá um determinado impacto sobre a gente. Porém, se chegarmos mais perto, a experiência muda, se torna mais pessoal.

Tente imaginar essa história pelo ponto de vista da mulher. O que a levou a trair o marido? Talvez o casamento estivesse esfriando há anos e, embora o cara fosse um bom pai para o filho, ele mal reparava na esposa. Quem sabe ele a fizesse se sentir diminuída? Quem sabe ele fosse abusivo? Quem sabe a mulher se sentisse, feia, estúpida e pequena em sua companhia? Ao vermos a realidade pelos olhos dela, podemos até mesmo não concordar com suas ações, mas certamente nos tornamos capazes de compreendê-las.

E como seria essa história pelo ponto de vista do marido? E pelo ponto de vista do amante perigoso?

Ou então esqueça esses 3 e imagina a história pelo ponto de vista do jovem e confuso filho do casal, que vê o distanciamento dos pais, vê o homem malvado saindo com sua mãe, espia o pai limpando seu velho revólver.

Está entendendo como a mesma premissa pode gerar histórias diferentes (com temas e experiências emocionais totalmente distintas) apenas ao se alterar o Ponto de Vista?

Ser um mestre do Ponto de Vista proporciona manipular a experiência do leitor em um nível muito profundo. E é isso o que o Raphael é capaz de fazer de um jeito incrível.

Vamos ver como isso aconteceu em seus dois livros mais recentes (e a partir de aqui o texto pode contar alguns SPOILERS leves sobre as tramas):

Dias Perfeitos é contado em terceira pessoa, mas em uma terceira pessoa limitada. Isso quer dizer que acompanhamos todo o livro por meio dos olhos, emoções e pensamentos de um único personagem: Téo. Nós não sabemos como outros personagens pensam ou se sentem, sabemos apenas o que Téo pensa e sente e como ele ACHA que outros personagens pensam e sentem. E isso é crucial para gerar o efeito tão devastador deste livro.

Dias Perfeitos é um livro perturbador que mostra um jovem psicopata que se acredita apaixonado por uma garota e tudo aquilo que ele é capaz de fazer para conquistar o amor dela.

Pessoas normais como eu e você ficam chocadas com os atos do personagem, mas, graças à maestria do autor, nós somos levados para dentro da mente de Téo e vemos como ele “dobra” a realidade para que esta faça sentido pra ele. Vemos como ELE enxerga o mundo e como ELE justifica tudo o que faz. E, acredite se quiser, faz completo sentido para aquele personagem agir da forma monstruosa como age. Ele não se vê como um monstro. Afinal de contas, ninguém é vilão da própria história… todos acreditam estar fazendo o certo.

O livro tem um efeito avassalador no leitor (passei mal em determinada cena) e boa parte desse efeito se deve à escolha mais do que acertada de Raphael Montes no que diz respeito ao Ponto de Vista. Claro que há muito mais no livro, mas, mesmo com todo o primor técnico do autor, não acredito que o livro seria tão poderoso se tivesse outro Ponto de Vista.

Já em Jantar Secreto o Raphael opta por utilizar um Ponto de Vista em primeira pessoa, o que significa que quem conta a história também é um personagem: Dante. Dante nos está relatando tudo o que viveu ao longo daquela trama.

Veja um trechinho do primeiro parágrafo do primeiro capítulo:

Dante é meu nome. Preciso que não se esqueça disso. Mesmo quando chegar à metade desta história, quando souber o que aconteceu e concluir que sou um filho da puta, um monstro sem coração, preciso que não se esqueça: meu nome é Dante e eu era um cara legal…

A partir daí somos carregados ao longo dos acontecimentos tendo sempre Dante como guia. Vendo seu olhar sobre tudo, vendo como se sentia e o que pensava.

E, como ele mesmo disse no começo, vemos como ele se transforma de um cara legal em um cara que faz algo monstruoso. Contudo, novamente o Raphael é tão hábil que nos coloca totalmente no lugar do personagem. De repente flagramos a nós mesmos justificando os atos do personagem, torcendo para que ele vá adiante com um plano maluco e desumano.

Por que isso?

Porque vemos o mundo pelo seu Ponto de Vista.

Se vivenciássemos aquela história com uma certa distância, seria fácil ficar contra o protagonista, torcer contra ele… e aí a experiência emocional estaria abalada.

Mas, quando entendemos perfeitamente cada uma das escolhas feitas. Quando vemos a nós mesmos pensando em tomar as mesmas decisões que o personagem toma, então não temos escolha a não ser nos conectarmos a ele.

Pra falar a verdade, ao longo do desenvolvimento da história nós vemos um personagem que é contra todas as coisas absurdas que nosso protagonista (e seus amigos) fazem. Esse personagem é a voz da razão. É o cara que está certo desde o começo. Mas, como nós já fomos fisgados pelo ponto de vista de Dante, nós não damos bola para esse personagem bonzinho. Na verdade nós queremos é que ele cale a boca e deixe a galera ir adiante com o plano maluco.

Vale dizer que Jantar Secreto é um livro incrível que contém muitos outros atrativos, fruto da habilidade excepcional do Raphael (temos até um capítulo contado via grupo de WhatsApp). Mas, mais uma vez, acredito que ele não seria tão forte se o autor tivesse optado por outro tipo de Ponto de Vista.

Sendo assim, que tal começar a pensar um pouquinho em como seria a sua história se vivenciada por diferentes pessoas? É possível que você consiga variar o tom totalmente, indo do humor ao horror, apenas manipulando corretamente esse fator.

Experimente e veja o que acontece.

E se tiver tempo e interesse, leia os livros do Raphael Montes. Tenho certeza que você vai se espantar com a quantidade de coisas que vai aprender apenas ao estudar o seu ritmo, seu estilo, sua forma de compor parágrafos e capítulos e, claro, a forma magistral como ele emprega o Ponto de Vista.

Boa leitura! 😉

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  1. Raphael Montes está na minha lista de leitura há muito tempo, mas muito tempo mesmo. Depois desse texto sobre suas habilidades e as histórias bem contadas, ficarei mais atenta para ser o próximo que compro.

    Excelente texto, Nano.

    1. Obrigado pelo seu comentário, Vanessa!! Fico feliz que tenha gostado do texto. Eu tenho certeza que você vai curtir os livros do Raphael 🙂

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