Storyline: a sua trama cabe em um tweet?

Quando eu me preparo para escrever uma história, normalmente gasto um bom tempo pesquisando e fazendo um monte de rabiscos por aí. Aquela coisa clichê, mas que sempre funciona: anotações em guardanapos, em papéis de rascunho ou em caderninhos.

Quando sinto que a história começa a ter uma certa consistência na minha cabeça, aí eu passo a organizar e dar forma para aquele monte de informações caóticas. E, nesse momento, tem uma coisa que eu gosto de fazer e que me ajuda muito na hora de escrever pra valer: o storyline.

Para quem não está familiarizado com o termo, o storyline seria uma espécie de resumo muito sucinto da sua trama. Algo que caiba em duas ou uma frase, daí o seu nome.

Em termos bem práticos, fazer um storyline é como contar a sua história em um tweet!

Tá, Nano, mas por que isso é importante?

Porque o storyline vai te ajudar a focar nas coisas importantes.

Quando escrevemos um romance, é muito fácil perder o controle e acabar divagando. Viajamos dentro do mundo que criamos e apenas ao final é que vamos nos dar conta que, embora possa haver muita coisa bacana nos nossos escritos, também tem muita coisa descartável, que não interessa ao leitor. O storyline serve como um guia que constantemente nos lembra do que se trata a história. Ele diz:

“Ei, cara. Não esqueça a essência da sua criação, heim”.

Outra função valiosa do storyline é mostrar se a nossa trama está complicada demais.

Escrever uma história em uma simples linha nunca é fácil, mas se você estiver achando a tarefa impossível, é bem provável que a narrativa esteja meio megalomaníaca e precise ser retrabalhada.

Lembre-se que o leitor, ao ler o seu livro, não tem acesso à sua mente. Ele não vai poder tirar dúvidas ou conferir as suas referências. Se a coisa estiver complicada demais, emaranhada demais, solta demais, a experiência será comprometida… e ele pode desistir do livro.

Como eu já disse em outros textos, menos é mais. E o storyline ajuda a gente a segurar a empolgação.

Além de tudo isso, ter um storyline em mãos pode ser crucial na hora de vender a ideia sobre o seu livro.

Lá fora existe um termo famoso chamado de elevator´s pitch. Fica mais fácil falar sobre ele com uma pequena historinha:

Imagine que você é o autor de “Game of Thrones” e está em uma convenção de escritores. Lá tem um monte de gente criativa, editores, agentes literários e donos de editoras querendo encontrar bons livros para publicar.

Agora imagine que você está saindo pra almoçar. Você pega o elevador junto de uma senhora bem vestida e de expressão simpática.

– Oi — ela diz. — Você também está na convenção? Você é um escritor?

– Sim — você responde. — E a senhora?

– Eu trabalho para uma editora. Estou procurando um livro original por aqui. Por acaso tem uma história para me contar?

Você sente o batimento cardíaco acelerar. A boca fica seca e uma gota de suor frio escorre pelas suas costas. Você respira fundo, se recompõe e diz:

– Bom, a minha história é sobre esse reino em luta, com vários nobres disputando um trono de ferro, mas também tem uma espécie de zumbis de gelo no norte, ao mesmo tempo em que uma garota que descende de uma antiga família que estava no trono quer reconquistar o poder, e também tem um anão que tem uma relação complicada com o pai e, falando em pai, tem um jovem bastardo que se alista em uma patrulha…

Então o elevador chega ao seu destino. As portas se abrem. A senhora vira pra você e diz:

– Legal, até mais.

E vai embora sem saber de fato sobre o que é a sua história. A oportunidade perdida para sempre.

Entendeu como ter um bom storyline em mãos faz toda a diferença? Por meio dele você consegue falar sobre a alma da sua história em poucos segundos e gerar interesse. Uma vez que as pessoas estejam encantadas pela ideia por trás da sua história, aí elas vão pedir mais e aí você terá tempo para entrar em detalhes.

Legal, Nano, entendi. E como eu faço um storyline?

Em alguns simples passos:

1) Antes de mais nada, se prepare para a tarefa. Muito embora o storyline seja composto de apenas uma frase, essa frase é difícil pra burro de encontrar. É perfeitamente normal gastar mais de uma hora testando variações até finalmente se sentir confortável com algo.

2) Identifique a ambientação. Onde e quando se passa a sua história? É no futuro distante? Em uma terra mística? Na Europa do século XI? Se é relevante para a trama, melhor falar disso desde já.

3) Identifique o protagonista da sua história, aquele personagem que tem mais a perder, e diga quem ele é em poucas palavras. Mas atenção: nada de nomes nesse momento. Prefira termos mais explicativos como “um policial aposentado”, “um nobre bastardo”, “um jovem bruxinho”, “um garoto que não cresce” e coisas do tipo.

4) O que o protagonista deseja mais do que tudo na sua história? Por quê?

5) Agora pegue isso que você criou e reduza até ficar bem claro e direto.

Alguns exemplos de storyline:

a) Em uma terra medieval fantástica, um pequeno hobbit precisa destruir um anel mágico para derrotar o senhor das trevas.

b) Um professor frustrado de química é diagnosticado com câncer terminal e decide traficar drogas para conseguir dinheiro.

c) No congresso americano, um político traído traça um plano para alcançar o poder a qualquer preço e se vingar daqueles que o prejudicaram.

Notem que nem de perto os storylines trazem os detalhes dos personagens ou da trama. Eles também não abordam as surpresas, reviravoltas e sacadinhas inteligentes que, eu tenho certeza, você incluirá no seu livro. Eles não servem para isso.

Storylines são um primeiro passo. Um olhar duro e direto para o que de mais essencial existe na história. Mas, sem conhecer o essencial da história, como podemos avançar?

Então, que tal brincar de resumir a trama em um tweet? 😉

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