Storyteller, você está olhando para o lugar errado?

Eu conheço um cara muito inteligente que já foi mágico profissional. Era bem bacana chegar no bar e vê-lo realizar suas estripulias com cartas, hipnose e coisas que desapareciam diante de nossos olhos. Era legal porque, embora a gente soubesse que tinha um truque ali, acabava caindo assim mesmo.

Fazíamos papel de pato, mesmo tendo certeza de que éramos espertos e perspicazes.

Por que isso acontecia?

Porque, como certa vez ouvi ele falar, colocávamos a nossa atenção no lugar errado. Enquanto olhávamos para um ponto, não percebíamos o que acontecia em outro.

Interessante, não é? E isso vale não só pra mágica, mas para as notícias, relacionamentos, política, enfim…

Será que também vale para as histórias?

De uns tempos pra cá eu tenho percebido toda uma onda de ataques a filmes, seriados e livros. Muita gente criticando ideias, estruturas, criação de personagens e roteiros de uma forma bastante… hmmm… apaixonada.

Vi isso acontecer com La La Land, com 13 Reasons Why, com Dunkirk e, mais escancaradamente, com a mais recente temporada de Game of Thrones. E isso tem me preocupado muito!

Veja, longe de mim dizer que nós devemos ser passivos e aceitar porcaria. Acho que é legal quando nos tornamos mais críticos e exigentes, mas é preciso tomar cuidado. Tomar bastante cuidado para não acabar olhando para o lugar errado e fazer papel de pato.

É natural, quando avançamos no aprendizado de técnicas narrativas, enxergar as histórias de uma forma diferente, como se tivéssemos saído da Matrix. De repente termos como structure, deus ex machina, plot points, etc passam a fazer parte da nossa vida e a gente começa a procurar por esses elementos nas histórias que consumimos. E começamos a avaliar essas histórias de acordo com esses elementos também.

E aí é que está o problema.

Problema porque, muito embora seja mesmo importante aprender e ficar atento a tais elementos, uma história é feita de MUUUUITO mais do que eles. Até mesmo mais do que o somatório deles.

Uma história é um instrumento para entregar uma experiência emocional. É uma forma de arte que tem o intuito de fazer o receptor sentir coisas.

Para isso nós criamos personagens, investimos em ritmo, aprendemos sobre atos. Mas tudo isso serve como ferramenta, como um meio para alcançar um fim. O fim sempre é mais importante.

De nada adianta você escrever um livro tecnicamente perfeito se ninguém curtir o resultado. Se ninguém sentir nada com a sua criação.

Fazer isso é agir como o cara que, mesmo compreendendo toda a lógica por trás de uma mágica, termina prestando atenção no lugar errado e é enganado assim mesmo.

O que o storyteller de sucesso entende é que ele não cria só para si. Ele cria para seu público também. E ele leva em consideração a jornada do receptor, suas emoções, sua experiência geral.

Ele sacrifica um pouco da sua vaidade para entregar algo especial ao outro.

Eu vi dezenas de pessoas xingando os roteiristas de Game of Thrones e dizendo como teriam feito roteiros muito melhores para a série. Essas mesmas pessoas davam ideias interessantes, mas que deixavam de considerar diversos fatores como orçamento, prazo, agenda de atores, tempo limitado em tela, produção, pós-produção e mais uma infinidade de coisas.

O resultado é que essa ira toda até pode chamar um pouco de atenção e afagar o ego, mas passa uma ideia bem diferente para quem já tem experiência no meio (como agentes e editores): soa amadorismo e falta de entendimento da profissão.

E, enquanto uma onda de ódio se espalha por certas comunidades de Facebook, a série bate sucessivos recordes de audiência ao entender que é necessário sacrificar certos elementos em prol do todo, em prol da experiência emocional.

É esse entendimento que faz com que, ano após ano, os críticos de cinema indiquem Cidadão Kane como o melhor filme da história mesmo tendo um dos erros de roteiro mais grosseiros de que temos notícia. Porque esse erro é um detalhe. O todo que o filme entrega é muito mais importante.

Tudo bem não gostar de algo. Tudo bem esperar algo melhor. Mas nunca esqueça que uma história não é um checklist. Não é uma lista de técnicas a serem observadas. Uma história é uma experiência… e, se tratando de uma produção para o grande público (como Game of Thrones), uma experiência que jamais será feita sob medida pra ninguém.

Procure sempre melhorar. Sempre estudar formas de aprimorar os livros, séries e filmes que você consome. Mas seja esperto, mantenha os pés no chão e o foco naquilo que realmente importa.

Desse jeito você vai ver como a mágica acontece de verdade! 😉

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