Escrevendo na Prática Parte 3: Testando a Ideia – Primeiras Sessões

Esse post faz parte da série “Escrevendo na Prática”. Clique aqui para ler o post anterior.


Havia chegado a hora de soprar um pouco de vida naquilo que eu tinha criado. Será que aquela sementinha possuía potencial para crescer? Será que as pessoas iriam se divertir no cenário? Será que o drama seria eficiente?

Como eu disse no post anterior, eu resolvi fazer uma prova de fogo por meio de um jogo de RPG. Sendo assim, reuni meu grupo de amigos (e com quem jogo há anos) e expliquei apenas que seria uma história de fantasia medieval. Dei liberdade para que eles criassem os personagens que quisessem e imaginei uma aventura inicial.

Se o jogo baseado em Mortos-Vivos & Dragões fosse um seriado de TV, então eu tinha em mãos o suficiente para alguns capítulos… apenas o bastante para chegarmos ao Ponto Sem Retorno (o ponto de virada que marca o fim do Ato I – como visto em Como Escrever Um Livro: Personagem e Trama). Depois dali, eu teria que improvisar.

Decidi que o cenário inicial seria Martuk, a capital do reinado, durante um grande evento anual. Mercadores e guerreiros de todos os lados do continente se dirigiam à capital para aproveitar os dias de festividade e não foi diferente com os personagens dos jogadores.

Por que essa simples medida foi importante?

Porque eu, de cara, já plantei algumas explicações para acontecimentos posteriores. Afinal, qual melhor lugar para uma peste tomar força do que em uma metrópole entupida de gente de tudo quanto é canto?

A festividade famosa também era uma boa explicação para o fato de termos diferentes personagens, de diferentes regiões e crenças, reunidos em um único local, ao mesmo tempo.

As coisas precisam fazer sentido, lembra?

Pois bem, comecei deixando que os personagens explorassem o ambiente e se familiarizassem com o cenário como um todo. Eles tiveram algumas interações e pequenas aventuras durante os primeiros dias de festas. Alguns decidiram participar de provas de habilidade, outros fizeram algum dinheiro roubando turistas incautos enquanto que outros decidiram conhecer pontos importantes da capital, como o templo do deus Angelus.

Foi importante ter em mente que os jogadores faziam o papel do que, em outras circunstâncias, seriam meus leitores. Desse modo, antes da ação começar pra valer, era vital situá-los naquele mundo que eu havia criado.

E deu tudo certo. Eles relaxaram e começaram a se sentir mais confortáveis em seus papéis.

Mas, enquanto eles se divertiam, eu tratei de inserir alguns elementos na história. Elementos que poderiam até parecer sem importância, mas que fariam muito sentido mais adiante:

  • Havia doentes no templo de Angelus. Gente com uma febre forte e em uma grande quantidade… o que deixou os sacerdotes intrigados.
  • Relatos de diferentes casos de violência pela cidade.
  • Boatos de um louco selvagem que atacou um grupo de viajantes com as próprias mãos (e dentes), antes de ser morto pela guarda real.
  • Um velho mendigo dizendo que podia sentir que os deuses haviam morrido.

Resumindo, eu aproveitei para estabelecer o Incidente Incitante (como visto em Como Escrever Um Livro: Personagem e Trama).

Veja bem, muitos autores acham que o começo da história serve apenas para apresentar personagens e mostrar um pouco do cenário. É claro que isso é importante e necessário, mas os primeiros capítulos também devem conter algo a mais, como pitadas do tema central que você irá tratar.

O seu objetivo é que, mais adiante na história, quando os problemas realmente começarem a acontecer pra valer, o leitor seja capaz de voltar nas primeiras páginas e entender que as pistas daquilo tudo já estavam ali. Ele deve pensar: “Uau, como esse escritor foi esperto, os acontecimentos que iriam desencadear o drama da história já estavam aqui, nas primeiras páginas”.

No meu caso, notei que o Incidente Incitante estava dando certo quando os jogadores ficaram intrigados com alguns detalhes, mas, ainda assim, não conseguiram enxergar a big picture. Só mais tarde foi que eles chegaram a algumas conclusões (acertadas, diga-se de passagem).

E isso me deu a confiança que eu precisava para avançar na trama… e que veremos no próximo post.

Por ora, espero que você tenha percebido como o início da sua história é importante. Você tem poucas páginas para dar o tom, apresentar cenário e personagens e ainda plantar acontecimentos que vão desabrochar em um grande drama mais adiante. Tudo isso de uma forma que faça sentido. Verossimilhança é uma obrigação!

Sendo assim, como exercício, que tal trabalhar um pouco no seu Incidente Incitante?

Pensando nos grandes conflitos e até mesmo no clímax da sua trama, a sementinha deles está lá nos primeiros capítulos? 😉

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