Você caiu no conto do escritor-gênio?

Atenção: é provável que esse texto te ofenda ou acabe com os seus sonhos. Se for o caso, leia até o fim… ele foi feito pra você.


A escrita é linda, não é mesmo? Uma forma de arte superior que permite que você expresse seu intelecto supremo e coloque pra fora toda a complexidade imaginativa e gramatical que acumulou ao longo de uma vida de sentimentos, reflexões e paixões ardentes.

Você sempre soube que era um escritor. Alguém destinado a grandes coisas. Alguém que seria admirado pela sua visão única de mundo.

Você não precisa de técnica. Você não precisa de alguém lhe dizendo como ou quando escrever. Você escreve quando está inspirado e ponto final.

Com você, a arte é real.

Se você se identificou com o que escrevi acima, tome cuidado. Abra os olhos e volte para o mundo real, pois você caiu no conto do escritor-artista-gênio.

Chega a ser engraçado a quantidade de pessoas no Brasil que realmente acredita que a escrita é uma arte diferente de todas as demais e que, por isso mesmo, não exige técnica ou comportamento profissional.

Para muitos postulantes a autores nacionais, se você estuda técnica, você está indo contra a arte. Se você escreve com metas, você está indo contra o impulso criativo. Se você pensa no seu leitor, você está prostituindo o seu deus interior.

Não ria, é sério… eu já ouvi isso.

Não à toa o Brasil é um dos países onde o meio literário mais sofre.

Temos poucos leitores. Temos uma massa de escritores que não busca se profissionalizar. Temos apenas um punhado de autores que consegue viver de escrita… e, o que é ainda pior, esses autores são massacrados pelos tais intelectuais das palavras.

Mas isso não é culpa inteiramente nossa, já que existe uma propaganda malandra que visa nos fazer crer que a escrita realmente é uma coisa para poucos talentosos.

A escrita não é para qualquer um. A escrita é para pessoas que alcançaram outro nível. Os escritores são inteligentes, cultos e enxergam a vida de uma forma própria. Eles tem um dom que nasceu com eles e que os torna aptos a sentarem a bunda na cadeira quando bate a inspiração e sair dali com uma obra-prima pronta para tocar corações e almas. Escritores são messias, deuses, x-men!

Isso é um monte de besteira, claro. Mas a ideia nos é vendida descaradamente há muito tempo e, água mole em pedra dura… você sabe o resto.

Mas por que isso?

Simples. Pra valorizar o passe.

É do ser-humano procurar algo para adorar. E esse algo não pode ser qualquer coisa. Tem que ser um ícone, um ser diferenciado.

Pense nos pôsteres de artistas que os jovens colocam em suas paredes… Kurt Cobain, Janis Joplin, Stones. Essas figuras são maiores que a vida. Elas flutuam em um nível totalmente diferente.

Com os escritores-gênios a lógica é parecida.

Ao propagar a ideia de que escritores são talentos natos, praticamente selecionados pelos deuses, os grandes fazedores de dinheiro colocam esses caras em um patamar de valor muito maior. E com um valor maior, temos preços de livros mais caros, filas em livrarias para pegar autógrafos, maiores chances de vender os direitos para o cinema e por aí a coisa vai.

É só você pensar… o que parece mais atraente ao romântico, um cara que escreveu um livro sozinho em um quarto de hotel barato após um coração partido ou um cara que estudou técnica por anos, escreve diariamente com metas, edita e reedita sua obra até ela estar pronta?

Entende o que estou dizendo?

É tudo um faz de conta.

O problema é que esse faz de conta alimenta sonhos de uma forma irresponsável.

Veja bem, em NENHUMA arte é possível alcançar a excelência sem muito treino e estudo. Existe uma técnica para tocar um instrumento musical, existe uma técnica na pintura, existe uma técnica até nas artes marciais. Por que seria diferente com a escrita?

Claro que dá pra você desvirtuar essas técnicas e criar algo novo. E isso é encorajado. Só que até mesmo para quebrar as regras você precisa conhecer as regras antes.

Eu não estou dizendo que você não pode ignorar toda a técnica e escrever do seu jeito. Eu não estou dizendo que você não pode usar a página em branco só pra colocar pra fora as suas angústias. Eu não estou dizendo que você não pode escrever pensando apenas em você e que se dane o público.

Claro que você pode fazer tudo isso. Diacho… eu faço tudo isso de vez em quando, já que tenho uma quedinha para literatura underground.

Mas o que não dá pra fazer é escrever assim e depois ficar reclamando nos fóruns e grupos de Facebook que o seu livro está empacado e que os leitores são todos uns ignorantes.

Eles não são ignorantes… talvez eles só não gostem do que você escreveu.

Se você quer escrever para poucos (ou para você mesmo), vá em frente e entenda que você não vai viver de escrita – e não fique chorando a respeito.

Se você quer escrever para um público, então você precisa levar a experiência de leitura dele em consideração e se esforçar para entregar uma obra que ele vá apreciar. E aqui entra a técnica.

A técnica não é sua inimiga, ela é uma ferramenta.

Ela não vai sugar a sua criatividade. Ela não vai te tornar menos inteligente. Ela não vai ser uma mancha de vergonha sobre a sua face.

Na pior das hipóteses ela vai te mostrar o porquê de certas coisas funcionarem… aí você pode desvirtuar tudo e criar a sua própria técnica, mas dessa vez por causa da sua sabedoria, não da ignorância.

Mas, Nano… e esses escritores famosos que nunca usaram técnica? E a J.K. Rowling, que escrevia no cafezinho, tadinha?

Claro que temos talentos por aí. Sempre teremos, em todas as áreas. Mas isso não é desculpa para você não fazer tudo o que está ao seu alcance para ser melhor.

Poe usava técnica, assim como Machado, assim como Gaiman, assim como Palahniuk (porra, esse cara tem até um site voltado pra técnicas).

E quanto à J.K., é verdade que ela sofreu um bocado antes de dar certo, mas você sabe que após o terceiro livro ela contou com uma equipe de escritores técnicos para ajudá-la, não sabe? Pois é.

Quando olhamos de perto, ninguém é tão divino quanto a publicidade quer nos fazer crer.

Cuidado com o conto do escritor-artista-gênio. Não deixe que ele fique no caminho do seu sucesso.

Continue escrevendo com o coração, apenas adicione suor, estudo e trabalho duro ao processo.

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  1. Olá, aqui estou eu novamente hehe
    Bom, gostaria de começar elogiando o texto. Como já disse antes, estou começando meu próprio blog literário que vai tratar de escrita, RPG e teatro (minhas três maiores paixões e ruínas). Recentemente, escrevi o primeiro dos artigos que pretendo postar em breve no blog (que ainda está em fase de idealização/construção, estou visando alguns projetos diferenciados), e o tema desse artigo era muito próximo desse texto: “Você tem o DOM?”
    Bom, no texto eu disserto sobre o que é, segundo o dicionário, o “dom”, e ao mesmo tempo, explico o porquê de eu achar que não usamos essa palavra da forma correta, principalmente no ramo da escrita. Resumidamente, eu digo que confundimos dom com vontade, persistência, estudo.
    Acho que, fundamentalmente, nossos textos se complementam. Ambos batem na mesma tecla: um escritor precisa de técnica, de estudo, e principalmente, de vontade. O dom a gente não vai receber de Deus ou dos deuses ou da Mãe-Terra, ou de qualquer que seja sua crença; nós temos que lutar para pegá-lo.

    Agora um pouco off-topic. Eu notei que você tem um livro publicado em Portugal, “QUILL”. Gostaria de saber se há alguma intenção de trazê-lo para o Brasil, publicá-lo aqui. Fiquei interessado pela história, e gostaria de vê-lo em terras tupiniquins hehe
    E mais uma coisa, já considerou a possibilidade de fazer um podcast para o blog? Sou novo aqui, então não sei se já tocou em tal assunto, mas acho que seria uma boa ideia. Bom, eu só conheço mais dois podcasts que falam sobre escrita criativa, e acho que ainda temos MUITO espaço para esse tipo de conteúdo na internet.

    Boa sorte e bom trabalho, Caio.

    1. Oi, Caio! Que bom ver você por aqui novamente. Obrigado pelo comentário… eu concordo com você sobre a força de vontade, esforço e estudo. Claro que existem pessoas mais predispostas a determinadas áreas, mas o trabalho duro sempre será uma parte fundamental do sucesso. Sobre o QUILL, que bom que você gostou da história… eu não posso falar muito sobre isso ainda, mas ele tem boas chances de aparecer na nossa terrinha logo logo :)! Quanto ao podcast, eu sempre estou pensando em novos meios para conversar com as pessoas… há alguns meses eu fiz uma pesquisa e descobrir que o meu público prefere receber o conteúdo em vídeo, mas isso pode mudar e eu certamente estou aberto a novas tecnologias. E sugestões como a sua são de grande ajuda para a evolução aqui do blog. Eu agradeço de coração!!!!! Um grande abraço.

      1. Hehe, vai me ver bastante por aqui de agora em diante!
        Realmente espero poder ler QUILL em breve, pareceu uma história muito interessante.
        Acho o conteúdo em vídeo legal também, Podcast é uma das minhas mídias favoritas pela praticidade, mas eu assisti ao vídeo que você mostrou como podemos ter ideias (aquele que o Frodo virou um camponês no Japão feudal e teve que entregar a espada lendária. Ótima história, por sinal), e de fato o vídeo é bem divertido também. Principalmente porque, independente da mídia, o que importa mesmo é o conteúdo.

        Abraço!

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